sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

O primeiro carrapato 
a gente nunca esquece


É isso mesmo. A gente nunca esquece o primeiro carrapato, nem o primeiro berne, nem a primeira nuvem de insetos, nem o primeiro temporal, nem a primeira queimada e nem muitas outras primeiras coisas mais.

Vou logo avisando que a vida no campo é ótima, mas quem acha que basta mudar para alcançar o paraíso, vai ficar decepcionado. A relação com a terra não é fácil. Cansei de ver ecologistas do asfalto louvando-a nas primeiras semanas e maldizendo-a nos meses seguintes.

A idéia é que este artigo sirva de alerta.

Se você é um daqueles que aprenderam a amar a natureza através da telinha de tevê, por influência de amigos ou por visitas eventuais, continue amando-a, mas não pense que a vida ali é igual aos dias passados nos fins de semana.

Não é.

Para quem não está habituado, a vida no campo pode ser amarga. A experiência de 25 anos, cheia de alternâncias, agradáveis ou não, me permite tal afirmação.

Exemplos: um dia, num fim de tarde, você resolve apreciar o pôr-do-sol. No melhor momento, as nuvens formam belíssimas figuras com as mais diversas tonalidades, quando uma coceira começa a se alastrar pelo seu corpo. Procura o local sob a camisa ou a calça para dar uma coçadinha, quando seus dedos tocam num calombinho. É um daqueles carrapatos brancos, enormes. Ao esmaga-lo com o dedo, respinga sangue até no rosto.

Desnecessário dizer que o pôr-do-sol foi para as calendas.

Atenção!

Jamais retire o carrapato antes de imobilizá-lo com éter. Caso contrário o ferrão permanece no local, causando durante muitos dias uma coceira ardida. Isto, para não citar a ferida que aumenta na mesma proporção da coceira. É tão dolorosa que passou a freqüentar o dicionário com o nome de carrapata.

Agora, se você gosta de deitar na relva ou caminhar por entre as árvores, naturalmente sem aquele sorriso idiota que acompanha os visitantes de fim-de-semana, reze para não ser atacado pelos carrapatos pólvora. São tão minúsculos, mas tão minúsculos, que se tornam quase invisíveis a olho nu. E gostam de atacar as partes pubescentes do corpo. Imagine a cena momentos depois. Você ou ela deitados, nus, com as pernas abertas, pedindo pelo amor de Deus para arrancar os bichinhos (mais correto seria dizer extrair). Esta operação pode durar horas porque eles habitualmente atacam em bando e são espertos. Espalham-se por outras partes do corpo, de difícil acesso, ao perceber que estão sendo caçados. E se a vítima possuir alguns quilinhos a mais, então é a glória. As dobrinhas do tecido adiposo tornam-se excelente esconderijo.


Mas se o carrapato for um daqueles marronzinhos, muito comuns aliàs, verifique se o seu cachorro não está recebendo a visita deles, pois tal visita poderá ser fatal.

Causa nambiuvu.

Começa sangrando as orelhas, em seguida avança sobre os demais órgãos do corpo. O sofrimento do animal é tão atroz que só restará o sacrifício. Mas como sacrificar alguém que se ama, que faz parte da família, carinhoso, amigo, solidário e outras qualidades mais que as lembranças sempre trazem nestas horas?

O que fazer?

Deixar o cão morrer lentamente com o veneno do pequeno aracnídeo, avançando e corroendo um a um seus órgãos internos, tornando a morte ainda mais dolorosa, ou decidindo-se pelo sacrifício, sabendo de antemão que apesar de todo o sofrimento, ele sente que vai ser executado?

É impossível olhá-lo nos olhos, que derramam lágrimas, não se sabe se de dor ou de tristeza pela derradeira despedida. E tudo isto por causa de um mísero carrapato, que nesta hora você não quer saber se ele tem ou não serventia, se há razão para ele existir ou que faz parte de um elo, etc, etc.

Nada disso interessa. A decisão precisa ser tomada e ponto final.

Como se vê, a vida no campo tem seus bons e maus momentos. Hoje você conheceu os bons. Mas isto é apenas o começo. Já imaginou um berne residindo sob o couro cabeludo, a caminho do cérebro?

Esta é uma história que fica para depois.

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