sábado, 23 de abril de 2011

Miniara minha aldeia


Hoje vou falar de um tema que me toca profundamente. Vou falar de minha aldeia, Miniara-Akkar, que fica no topo de uma montanha e tem o mediterrâneo a seus pés. Miniara é uma daquelas aldeias milenares que ornam o Líbano. Foi ali que nasceu o imperador romano Alexandre Severo e Israel destruiu minha infância.

Vivi em Miniara até os 10 anos de idade, filho de pai libanês e mãe baiana.

Miniara é uma aldeia cristã e resistiu ao cerco dos cruzados durante três meses, até que os escorraçamos em maio de 1099. Dirão, mas se a aldeia era cristã por que enfrentou os cruzados? Simples. Entender que os cruzados defendiam o cristianismo é o mesmo que entender que os israelenses defendem o judaísmo. A exemplo dos cruzados, os israelenses entendem mais de saques, massacres e genocídio do que de fé.

(Dez anos mais tarde os cruzados avançarão sobre a cidade de Trípoli, a 15 quilômetros de Miniara,  massacrarão a população e queimarão os 100 mil volumes de sua Biblioteca Dar-Al-Ilm. Israel fará o mesmo passados mil anos, mas ao contrário dos cruzados, suas tropas jamais tiveram coragem de lutar corpo a corpo).

Da neve, vou falar da neve que cobria a aldeia no inverno, dos lobos que rondavam a nossa casa em busca de alimentos e de seus uivos que cortavam as noites de lua cheia; das flores e perfumes da primavera que arrebatavam os rouxinóis cujo canto atravessava a alvorada e cessava somente ao por do sol; do outono quando as folhas se despediam das árvores e forravam o chão de ouro; do verão, ah! o tão esperado verão cujo sol abrasante amadurecia os frutos. Quem experimentou subir numa figueira e colheu um delicioso figo terá um sabor permanente a lembrá-lo daquele momento. Dos pessegueiros e das macieiras, das ameixeiras e amoreiras com seus bichos da seda, das nogueiras, amendoeiras e pereiras. Das parreiras nem quero falar porque em nosso quintal, além da sombra que nos propiciavam, mais felizes ainda ficávamos quando colhíamos seus cachos maduros. Minha lembrança me remete a uma em especial, de imensos cachos de uva fina comprida e sem sementes que atendia pelo nome de dedo de noiva.

Entre a aldeia e o mar há uma pequena planície, a planície de Akkar, cujos trigais de espigas douradas balançavam ao sabor do vento dando a sensação de movimento, um enorme tapete mágico.

As aulas eram em período integral, mas havia dias que preferíamos explorar as gigantescas cavernas recheadas de morcegos e de extensão quilométrica, a ouvir o professor fazendo explanações sobre a nossa História milenar. Com certeza essas cavernas serviram de modelo para a construção do labirinto de Creta onde Teseu enfrentou o minotauro.

Incrustados nas cavernas, túmulos fenícios que jamais foram abertos. E o que dizer das moedas romanas que encontrávamos sob os escombros de Arca Caesarea para trocar por doce? Arca, nome que revela sua origem romana, foi soterrada por um terremoto em 1157 e nunca mais se recuperou.

Está escrito na Bíblia que Deus descansou no sétimo dia. Almas piedosas juram que foi em Miniara que Ele encostou a cabeça para tirar uma soneca até ser acordado pelos mísseis israelenses. Imaginem o sobressalto ao notar o estado em que se encontravam os milenares cedros onde Adão e Eva viram a luz pela primeira vez.

Sem exagero, verdade que não há comprovação histórica, diz-se que foi em Miniara que Gilgamesh procurou a planta da imortalidade; que Hamurabi se inspirou para criar o primeiro código da humanidade; que Sargão teve idéia de sua pequenez; que Nabucodonosor, depois de experimentar os frutos, o clima e a beleza de Miniara preferiu passar o resto de seus dias pastando. Em Miniara a Lei de Talião jamais vingou e, dizem os entendidos que se Abel vivesse ali, jamais seria assassinado por Caím, que hoje usa mísseis para praticar os seus crimes.

Havia em nosso quintal e seus arredores inúmeras oliveiras que faziam da colheita da azeitona, festa. Uma era especial que meu avô disse ter sido plantada havia mais de 300 anos e cujas azeitonas e azeite produziam um sabor todo especial. Especial como as parreiras, as ameixeiras e todas as plantas citadas e não citadas.

Foram pulverizadas em segundos e com elas a minha infância. Mísseis cruzaram os céus contra alvos indistintos. E aí se incluem seres humanos.

Estou cansado das análises de gente honesta e outras nem tanto sobre o comportamento dos Estados Unidos e de seu posto militar que atende pelo vulgo de Israel. Sinto informar que há muito passei da fase de visualizar alguma solução para a paz nesse mundo em que vivemos, enquanto prevalecer o atual sistema. É um sistema que vive da crueldade e se  alimenta da exploração do homem pelo homem. O seu combustível é a miséria e a exclusão, seja qual for a geografia ou a língua. O problema da humanidade é a memória. Uma pequena análise resultará na morte violenta de centenas de milhões, vítimas de duas guerras mundiais e de centenas de outras nem tanto, mas tão letais quanto. A falta de memória nos faz esquecer até das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki.

Por isso faça-se a análise que se fizer, mas enquanto houver fronteiras físicas (as outras não existem mais) haverá guerra; enquanto houver um explorado, um oprimido e um excluído haverá guerra. A  mensagem é clara e a solução é simples. O resto é malabarismo de quem não entendeu nada ou não quer abrir mão de seus privilégios.

6 comentários:

  1. Quero conhecer Miniara.
    Parabéns pela lucidez.

    ResponderExcluir
  2. Intelectuais israelenses apoiam criação de Estado palestino
    Dezenas de intelectuais, artistas e personalidades públicas israelenses participaram de uma manifestação, quinta-feira, em Tel Aviv, em defesa da criação de um Estado palestinos de acordo comas fronteiras de antes da guerra de 1967. “Fazemos um chamado a todos os que buscam a paz e a liberdade para todos os povos para que apoiem a declaração de um Estado palestino e atuem para estimular os cidadãos dos dois Estados a manter relações pacíficas com base nas fronteiras de 1967 (...) O fim total da ocupação é um requisito fundamental para a libertação dos dois povos”, diz declaração do movimento

    ResponderExcluir
  3. Caro Bourdoukan, no google earth é possível encontrar algumas fotografias da sua região. REALMENTE, enquanto o ser humano não for mais humano e menos animal, viveremos neste jogo de Caims e Abels, cada dia um faz um dos papéis. Abraços parabéns pelo blog. Sensacional.

    ResponderExcluir
  4. Adorei a sua Miniara, minha tambem, de lembrancas de minha infancia e adolescencia no Libano, em aldeias, Miniaras!

    Obrigado Bourdoukan!

    ResponderExcluir
  5. Adorei a sua Miniara, minha tambem, de lembrancas de minha infancia e adolescencia no Libano,aldeias, Miniaras!

    Obrigado Bourdoukan!

    Emir

    ResponderExcluir
  6. Já gostei de Miniara! Estou lendo com meus alunos de "Religião e Literatura" a história de Gilgamesh e colocarei seu blog como referência para que eles elaborem suas leituras e interpretações! Abraço.

    ResponderExcluir