sexta-feira, 3 de junho de 2011


Nobre estirpe

Depois de relatar sobre as agruras causadas pelos carrapatos(AQUI) e sobre o aprendizado através da observação (AQUI), volto ao assunto.

A vida no campo, com certeza, é melhor do que a vida na cidade, mas não tem nada de bucólica. A alternância entre os bons e os maus momentos supera em muito a instabilidade climática dos dias atuais.

Alguns exemplos: se chove, fica-se sem telefone porque a chuva molha os fios. Ensopados, eles não funcionam. Se o vento é forte, o balanço dos fios não permite ligações. E se o sol atravessa o meridiano sem nuvens, os fios ressecam  o que significa, nos três casos, mutismo total.

Telefone celular, nem pensar. Várias tentativas resultaram infrutíferas. Ao que parece, a tecnologia que nos empurraram não está preparada para superar acidentes geográficos. Isto, a uma distância de 40 quilômetros, em linha reta, da cidade de São Paulo.

Donde se conclui que a globalização não passa de um conto do vigário. E no terceiro mundo, uma  piada de caráter duvidoso.

Aqui abro um parêntese para uma explicação aos cultores da modernidade.

Uso a expressão terceiro mundo e não países emergentes, por entender que emergente é o resíduo que emerge das águas do vaso sanitário depois de expelido pelo intestino.

Feito o esclarecimento, fecho o parêntese e volto aos bons ares do campo. 

Como todos sabem, sítio que se preza tem que ter cachorro, apesar de um velho provérbio árabe afirmar que aqueles que verdadeiramente confiam em Deus não trancam as portas de suas casas. Mas como hoje, graças ao neoliberalismo, nem a casa do Senhor está a salvo, nada impede que reforcemos a nossa fé com o auxílio do melhor amigo do homem. O problema é que não pode ser qualquer um, principalmente se você tem alguma criação.

Pastor alemão, então...
Mas quis o destino, sempre ele, que justamente um belíssimo exemplar dessa raça, uma fêmea para ser mais exato, viesse nos fazer companhia. Com a recomendação de que, bem treinada, Safira, esse era o seu nome, não causaria problemas, pois  descendia de uma linhagem de alta estirpe. Pais carinhosos, avós pacíficos, irmãos de boa índole, inteligentíssimos, que gostam de crianças ( e que animal não gosta de criança com os ossinhos ainda tenros?)  e por aí vai.

E ela foi.

Mal atingiu a adolescência, ignorou sua nobre estirpe, esqueceu-se das aulas, das recomendações e da boa etiqueta, e numa tarde abateu três patos antes que pudessem se refugiar na águas do lago.

 De nada adiantaram as reprimendas já que, uma semana depois, cometeu um avecídio contra as galinhas que ciscavam pacificamente no quintal. Sobrou apenas uma e mesmo assim porque estava chocando longe do infausto acontecimento. O recado não podia ser mais explícito: é impossível haver diálogo entre desiguais. A História ensina que o diálogo só pode ser entre iguais. Se você, por exemplo, tem uma bomba atômica e eu não, não há o que dialogar. Você dita as ordens, eu obedeço e ponto final.

Resumindo: da ninhada sobrou apenas a galinha e um franguinho, que, espera-se, cumpram com sua obrigação de  preservar a espécie dos garnisés.

Azar dos castores ( nútrias ) que não conhecem história e imaginavam poder dividir o mesmo espaço com a cadela.

Num cinzento dia, ela  apareceu arrastando um pelo pescoço. Pesava mais de dez quilos. Isto pela manhã, pois à tarde, resolveu testar seus caninos em um ganso. A tragédia só não se consumou porque os gansos são aves solidárias ( ao contrário da fauna humana ) e quando um é atacado, todos correm para acudí-lo.

O que fazer?
Choveram palpites.

Houve os que recomendaram abater a desobediente com um tiro, outros sugeriram veneno e os mais caridosos, que a abandonássemos num lugar distante, de preferência perto de alguma estrada.

Haverá uma quarta alternativa?
No momento ela está rondando o ninho de uma perua choca. 

2 comentários:

  1. Uma cerca que separe a cachorra assassina de suas possíveis vítimas... quem sabe? Boa sorte.

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  2. meu caro Joel
    Muito boa a sua sugestão. Acabamos de montar a cerca, vamos aguardar.
    Um abraço

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