A Líbia que eu conheci – 3
Belo e os dois policiais estão parados ao lado de um reluzente carro Mercedes Benz novinho em folha.
Perguntei o que estava acontecendo.
Um dos policiais me disse que o meu companheiro não parava de apontar a chave do carro na ignição. E que eles não sabiam a razão, pois Belo não falava o árabe e nem eles o “brasileiro”.
Então era por isso que eles saíram juntos do hotel.
Nada preocupante.
Belo me explicou e eu traduzi para o policial que ele, ao ver a chave na ignição, ficou preocupado de alguém roubar o carro.
Os dois policiais começaram a rir e disseram tratar-se de um carro abandonado.
Era um costume no país.
Quem não gostasse do carro bastava abandoná-lo com a chave dentro. O interessado podia levá-lo.
Essa era a Líbia da época.
Muita fartura, nenhuma miséria e a abundância ao alcance de todos.
Alias isso podia se observar nas pessoas.
Os mais velhos, que viveram sob o domínio dos colonialistas e durante a monarquia, eram pessoas alquebradas, corpo seco.
As crianças e os jovens eram saudáveis e alegres.
Só para se ter uma idéia da Líbia sob Kadafi, tudo custava mais ou menos o equivalente a 3 dólares.
Havia supermercados gigantescos, mas nada era vendido a varejo.
Quem quisesse arroz, por exemplo, pagava 3 dólares pelo saco de 50 quilos.
Tudo era nessa base.
Fomos visitar o parque industrial de Trípoli e eu pedi para conhecer uma tecelagem.
Perguntei como era a relação com os clientes e um técnico alemão que ali se encontrava para montar o maquinário, começou a rir.
“Os líbios são loucos”, me disse. E completou: “eles não vendem nada aqui por metro, somente a peça inteira. E para qualquer um que entrar na fábrica e pedir”.
Perguntei o preço da peça: 3 dólares a peça de 50 metros...
Mas se você, por exemplo, quisesse comprar uma gravata, qualquer uma, o preço mínimo era o equivalente a 200 dólares.
Um cachimbo, 300 dólares.
Ou seja, todo produto que que lembrasse os colonizadores e, de acordo com eles, representasse ou sugerisse consumo supérfluo, era altamente taxado.
Bebida alcoólica, nem pensar. Dava prisão sumária.
E foi o que aconteceu com dois jornalistas argentinos, cuja “esperteza” os remeteu ao porto e ali compraram de um cargueiro, uma garrafa de uísque.
Um dos funcionários do hotel sentiu o bafo e os denunciou.
É verdade que eles não foram presos, porque eram convidados do governo.
Mas não puderam entrevistar ninguém, muito menos o Kadafi...
E nós só soubemos disso porque o embaixador do Brasil, uma figura simpaticíssima, uma noite nos convidou para a Embaixada e, ali, nos ofereceu um uísque de não sei quantos anos (guardado a sete chaves num cofre), que Manse e Belo acharam delicioso.
Claro que eu também bebi um gole, apesar de detestar uísque.
Seja de que marca for, de que ano for.
Sempre me lembrou o gosto de iodo.
Evidentemente não faria uma desfeita ao embaixador tão solícito.
Não estalei a língua porque aí seria demais.
Antes de nos despedirmos, o embaixador nos ofereceu um litro de leite para cada um, pois segundo ele o leite disfarçaria o nosso hálito.
Na porta, perguntei ao embaixador se ele poderia nos dar um depoimento.
“O Kadafi é um Gênio”, respondeu.
Surpreso, perguntei.
O senhor considera o Kadafi um Gênio?
Sim! Um Gênio!
Continua...

Porque demorou tanto para escrever sobre isso? Por acaso não sabe o peso de informações como as suas em quase um ano de guerra? QUALQUER jornalista ou profissional da comunicação com a visibilidade que vc possui, tem a obrigação moral de se posicionar ao lado da verdade o mais rápido que lhe seja possível. Continue postando suas histórias Bourdokan, mas sinto que tenha demorado tanto a fazê-lo. Aliás, sinto por vc e por muitos outros. Muitos eu conheço, pessoalmente, estiveram na Líbia várias vezes e continuam em silêncio. Provavelmente com medo de se comprometer. Uma pena...
ResponderExcluirJuliana Medeiros...Bourdoukan receoso? Ledo engano...É dificil, querida, saber, antecipadamente, que tudo isso seria, como foi, destruído...meus alunos fazem perguntas sobre a invasão na Líbia, eu respondo...assim...melancolicamente....imagine escrever e relatar o inferno para quem conheceu um lugar paradisíaco....acho que esse deve ser também o sentimento do professor Bourdoukan...mais uma derrota...depois...melancolia...depois...novas lutas...outras batalhas...tempo de partidos partidos, como disse o poeta Drummond...se os árabes não tivessem se partidos....ah!....
ResponderExcluirValter, desculpe.. mas os conflitos começaram em fevereiro. EU estou chocada, muitos como eu que estivemos lá estamos chocados mas muitos que nem estiveram, tem tentado falar em vão e, expondo-se, também se submetem às ironias, alavancadas pela guerra midiática e pelo senso comum. Desculpe a franqueza Bourdokan, respeito MUITO seu trabalho, mas estou desolada. Destruíram a Líbia! Um punhado de opositores (coitados, pagarão o preço da conta que chegará em breve pela "ajudinha" que receberam), foram USADOS por um sistema em que grande parte dos jornalistas do mundo são cúmplices. Cúmplices do massacre, do silêncio, dos zumbis nas ruas de Tripoli, Brega, Misrata, Zwaya... Os líbios não são árabes, são árabes africanos, o que junto com outros aspectos, lhes confere uma característica muito diferente.. Há uma complexidade imensa na condição da Líbia que foi confundida com o resto, com a chamada "primavera árabe". É difícil mesmo explicar tantas coisas, eu quase não consigo acreditar nessa situação absolutamente bizarra que assisti nos últimos meses. Mas ok, se não foi possível descrever antes tantos detalhes de uma experiência tão única, que POR FAVOR, vc continue escrevendo e tente replicar a informação. Quem sabe isso, somado a tantos outros relatos que vem surgindo, podem ajudar à resistencia líbia a vencer essa invasão inescrupulosa, perversa. Porque a única coisa que podemos dar ao povo líbio nesse momento, é nossa voz, nossas palavras, que afinal é nossa ferramenta, nossa única arma.
ResponderExcluirJuliana, existem postagens nesse blog denunciado que os mercenários eram mercenários treinados pela OTAN...denunciando que os mesmos, mesmo com Kadafi ainda no poder, já haviam criado um banco para receber o dinheiro quie havia sido bloqueado pela EUROPA-EUA; vale salientar que o professor Bourdoukan foi o primeiro a afirmar os motivos pelos quais essa dupla ariana havia decidido bombardear a Líbia, enfim, começou em fevereiro, mas em fevereiro mesmo, houve denuncias e fartas informações nesse blog.
ResponderExcluirEstou compartilhando hoje, no meu blog, esse relato na íntegra. Peço desculpas ao Bourdokan se pareci incisiva demais. Estou desolada e a leitura do texto integral me deixou sinceramente deprimida. Eu tenho que confessar, acredito no conceito de karma budista e sei que o nosso, daqui pra frente, será muito, muito pesado. Sei que parece pouco racional.. mas é no que eu acredito. Não sei nem se sobra algo de "humano" depois que todos assistiram à tortura e morte do kadafi, com detalhes em close, slow motion e muitos, exultantes!... Qnta insanidade coletiva!... Parabéns a todos os envolvidos! O anúncio do CNT de que trará a sharia de volta é a cereja do bolo de todo esse bizarro e macabro massacre.
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