segunda-feira, 31 de janeiro de 2011


Estados Unidos  e Israel querem que Mubarak feche as mesquitas

  As mulheres egípcias na liderança das manifestações no Egito

Estados Unidos e Israel querem que Husni Mubarak, o ainda governante do Egito feche as mesquitas.

Eles entendem que elas são irradiadoras de revolucionários.

Estados Unidos e Israel querem evitar um novo Iran.

Foi nas mesquitas iranianas que o povo se aglutinou para ouvir as mensagens em fitas k-7 do então exilado aiatoláh Khomeini para derrubar o xá Reza Pahlevi.

Israel e Estados Unidos acreditam que o islamismo sensibiliza mais as massas do que o comunismo.

Mas Israel tem ainda outra preocupação.

A fronteira da Palestina Gaza com o Egito.

O receio é que os militares egípcios, que fazem a vigilância, fechem os olhos e permitam a circulação livre de palestinos nos dois lados.

A situação no Egito continua fora de controle e Mubarak tenta resistir a todo custo.

Ele quer abandonar o país, mas quer garantias de que não será julgado pelos massacres.

Sua família já abandonou o Egito carregando centenas de milhões de dólares e euros.

Estados Unidos e Israel não querem aguardar o desfecho da revolta porque sabem que, seja qual for o governante, eles serão os únicos perdedores.

A não ser que permitam a criação imediata do Estado Palestino, que hoje já é reconhecido por mais de uma centena de países, e o ex-presidente brasileiro Lula foi um dos promotores desse reconhecimento.

O Oriente Médio continuará em erupção enquanto a Palestina continuar oprimida por Israel, Estados Unidos e seus vassalos.

De nada adiantará fechar as mesquitas, como querem Israel e Estados Unidos, pois o cerne da questão é a Palestina.

E os árabes  sabem disso.

Sejam eles muçulmanos, cristãos ou judeus.

domingo, 30 de janeiro de 2011


         Ecce homo

            Gravura de João Werner (www.joaowerner.com.br)


A humanidade é uma ave de asas partidas
Que vaga no Universo rumo ao desconhecido
Em busca de um sentido para a vida.

Tem o alucinado por guia.

Navega uma rocha movida pela soberba,
Pela arrogância e pela paixão.

O eu é, o ele não é.Um louvor à imperfeição.

A humanidade é um espelho embaçado
Alimentado pelo desespero e pela incerteza.

Fome e ódio não permitem pensar no amanhã.

A natureza não cria indigentes.

O destino, uma profundidade insondável,
Uma porta da qual só você tem a chave.

Do destino, homem algum escapou.
Nada é definitivo, nem a morte.

Vontade de viver, vontade de poder,
Eis a verdadeira dimensão do homem
Para atingir o eterno e superar o infinito.

Maior que o infinito menor que o imenso.

Procure o intermediário entre o
Saber e o ignorar e terá
O invisível sustentando o visível,
A essência superando a existência.

Não há limite para o possível.

Saber questionar é viver,
Aceitar o dogma é anular-se.

Quem pode entender a razão humana?

O homem é algo que precisa ser superado.
Brutalidade e ganância movem o planeta.
O homem animal doméstico do homem.

O que é o homem?

Ele é aquele que troca a alma pelo lucro
Ignorando o que a história ensina.

Onde houver opressão haverá Revolução
Eis o Homem.

sábado, 29 de janeiro de 2011


           E tudo começou com Lula

                        Mubarak está pronto para fugir do Egito

Israel e Estados Unidos já não sabem mais o que fazer. Querem porque querem participar da escolha do novo dirigente do Egito. Mas está difícil porque a população egípcia está irredutível.

Quer escorraçar o ditador Mubarak o mais rápido possível do poder.

Eles não o perdoam porque abandonou os palestinos.

Todos no Oriente Médio sabem disso menos a mídia ocidental.

O mesmo pode-se dizer da Tunísia, Líbano e agora Jordânia e Iêmen.

E logo, logo Mauritânia e Somália.

Líbia, Argélia e Marrocos já mobilizaram seus aparelhos repressivos para enfrentar suas populações.

Barack Obama sabe disso, mas ele nada pode fazer contra o lobby judaico que domina o parlamento e a mídia dos Estados Unidos.

O inconformismo dos árabes aumentou depois que o presidente Lula reconheceu o Estado Palestino, seguido por inúmeros países latino-americanos.

Já são mais de 100 países reconhecendo plenamente o Estado Palestino com fronteiras de 1967.

E soma-se a isso, mais de 60 Ongs de Israel.

Ron Pundak um dos dirigentes do comitê de coordenação das Ongs israelenses, declarou: "Decidimos reconhecer simbolicamente um Estado nas fronteiras de 1967 junto a Israel, com Jerusalém como capital dos dois Estados, assim como fizeram recentemente vários países da América do Sul".

Imaginem a repercussão dessa declaração entre a população árabe.

 Mubarak, que tem o hálito de um faraó recém retirado da tumba, tem tanta certeza que seus dias estão contados, que já despachou seus familiares para fora do país com dezenas de malas abarrotadas de dólares e euros.

E se ele ainda não fugiu é porque Estados Unidos e Israel pediram para que permanecesse mais alguns dias para eles negociarem com seu sucessor.

Por enquanto eles só poderiam negociar com Mohamad Al-Baradei. Mas Baradei dificilmente contará com o apoio da população.

Soma-se a isso o fato de que ele dificilmente confiaria nos Estados Unidos. Afinal, apesar de ser Premio Nobel da Paz, foi literalmente escorraçado  da Agencia Internacional de Energia Atômica por George W.Bush porque recusou-se a confirmar a existência de armas de destruição em massa no Iraque.

O que apavora Estados Unidos e Israel é a possibilidade de Os Irmãos Muçulmanos assumirem o poder, o que pode levar diversos outros aliados  do Ocidente na região a seguir o exemplo egípcio.

A questão que se coloca é clara: ou se reconhece imediatamente o Estado Palestino, ou de nada adiantarão os conchavos.

E o Iran assiste a tudo de camarote...

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Ou um Estado Palestino ou o caos


Ou de como os Estados Unidos assistem ao último suspiro de seus vassalos no Oriente Médio

Tunísia, Líbano, Egito estão finalmente a caminho de sua emancipação. E os Estados Unidos nada podem fazer porque precisam garantir a Arábia Saudita e os emirados (petróleo), o Paquistão(nuclear) e Israel, que tem feito da vassalagem a razão de sua existência.

Do Iraque e Afeganistão eles praticamente já desistiram ( depois naturalmente de se apossar de suas riquezas), pois já não conseguem mais deter os mercenários  que para ali  enviaram. São esses mercenários que andam cometendo atos de terrorismo ora contra os sunitas ora contra os xiitas.

Se o povo da  Tunísia encontrar o seu norte, levará como ele, num primeiro momento, a Argélia, a Líbia e o Marrocos.

O mesmo pode se dizer do Egito, para desespero de Israel, cujos governantes continuam cegos e arrogantes.

O que os Estados Unidos e o Ocidente não  entendem é que enquanto não for criado o Estado Palestino, o Oriente Médio continuará em efervescência.

Sejam quais forem os ditadores, reis e emires de plantão.

Ou a Palestina ou o caos.

E abaixo, uma canção sobre a Palestina

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Assim falou Hassan Nasrallah, líder do Hizbullah (Partido de Deus)



“Somos a resistência. Não nos interessam cargos.” 


  “O Hizbullah não é partido que caça cargos e aspire ao poder. (...) Nunca exigimos ministérios ou cargos na administração ou no poder. O que reivindicamos é que entendam que somos um movimento de resistência; existimos para preservar nosso país, preservar a dignidade do Líbano e dos árabes, libertar terras ocupadas e locais sagrados.

(...)Lutamos contra Israel, de peito aberto e declaradamente. Esse o martírio ao qual nos expomos. E não aceitaremos tiros à traição ou conspirações. Não precisamos que ninguém nos proteja. Trabalhamos para os pobres e com os pobres, sobretudo nas áreas mais carentes, como Akkar, no Bekaa e no Norte. O que os partidos da maioria fizeram por Akkar, Trípoli e o norte, nos últimos cinco anos?”


Assistam abaixo um trecho da batalha de Beit Yahoun, em 1999, quando jovens libaneses do Hizbullah expulsaram os soldados de Israel do Líbano.Apesar do armamento desproporcional, Israel utilizou aviões, helicópteros, tanques e misses.Inconformados com a derrota, os israelenses invadiram o Líbano em 2006, massacrando a população civil, principalmente mulheres e crianças. Foram novamente derrotados pelos jovens libaneses do Hizbullah.



                   O genial Libanês



 Em 1974 o governo dos Estados Unidos perguntou aos índios se os americanos deveriamair do Vietnã. Eles responderam que sim... e dos Estados Unidos também.

Aos que me privilegiam com sua atenção peço desculpas por tê-los remetido ao sudeste asiático já que a idéia inicial era escrever sobre o fundador da primeira escola grega de filosofia e um dos Sete Sábios, o pré-socrático de ascendência fenícia Tales de Mileto.

Encontrava-me a três mil anos de distância na aprazível companhia de Aristóteles e depois de não tantos anos assim na de Hegel e Nietzsche, todos admiradores incondicionais do genial libanês quando o próprio Tales me remeteu ao Vietnã ao contemplar a multiplicidade na unidade, na proposição de que tudo provem do UM e o UM se resume a apenas uma palavra: água.

E o que foi o Vietnã senão a transformação da diversidade numa unidade dolorosa que contemplou somente a morte? Do Vietnã ao Afeganistão e dali ao Iraque e à Palestina eis que a História é novamente violentada, para gáudio dos roedores que se locupletam com a brutalidade do império e seus vassalos.

 Um rato não pode engendrar outra coisa que não um rato.

Os anti-semitas precisam entender que a força e a violência podem muito, mas não podem tudo. Despojados de sua natureza humana, erigiram a brutalidade em ciência. Eles querem governar a humanidade pelo terror. Os Estados Unidos continuam ocupando o semita Iraque e o Afeganistão e Israel continua mantendo mais de um milhao e meio de semitas palestinos no maior campo de concentração do mundo.

Acreditar em paz estadunidense e israelense é o mesmo que acreditar na cura do remédio pela doença.

Tales que me perdoe.

 E abaixo, mais uma canção palestina sucesso nos países de língua árabe


quarta-feira, 26 de janeiro de 2011


Garabed, o armênio


Uma árvore sem raízes não frutifica. Assim foi a passagem pela vida de Garabed, o armênio. Um personagem que vive num vai-e-vem pela minha memória. Uma nuvem em céu límpido que busca onde se refugiar. Em vão.

Quem não tem raízes não consegue se agarrar ao passado. Garabed, o armênio, vivia perambulando pela nossa aldeia de Miniara Akkar, norte do Líbano. Se chegou criança ou jovem não sei e quem poderia dizê-lo já partiu.Sei apenas que os meus cinco ou seis anos de idade o viram pela primeira vez já adulto.Tento recuperar sua imagem, mas só consigo vê-lo chorando ou gargalhando o riso dos insanos.

Os menos piedosos o tratavam com desdém, talvez por não conhecerem sua história.  Aparecia de vez em quando em nossa casa para ganhar um prato de mijadra, alimento comum á base de arroz e lentilhas. E quando a situação não o permitia, contentava-se com um pão redondo que a minha avó fazia num forno a lenha. E foi minha avó que um dia, observando a minha curiosidade, me contou quem era Garabed, o armênio.

Ele e mais de um milhão de armênios sofreram o holocausto na mão dos turcos. Foram expulsos de seu país e obrigados a caminhar pelo deserto em direção à Síria. Morreram milhares, centenas de milhares, mais de um milhão, dizem os historiadores.

Garabed era criança, mais ou menos da sua idade, me dizia minha avó. Era ele, duas irmãs maiores, seu pai e sua mãe. Todos os seus parentes já haviam sido assassinados pelos turcos na Armênia. Só restou a família dele. Mas uma semana depois, durante a travessia do deserto, os soldados turcos violentaram suas irmãs na frente de seu pai e de sua mãe. Em seguida as degolaram. Depois violentaram sua mãe e também a degolaram. Garabed viu tudo e viu também quando um soldado turco chamou seu pai e lhe perguntou porque andava descalço. O pai respondeu que a areia do deserto havia comido seus chinelos. O soldado chamou o ferreiro e mandou buscar cravos e duas ferraduras. Em seguida fizeram o pai de Garabed se ajoelhar e pregaram as ferraduras em seus pés.

Olho para a minha avó estarrecido. Como é possível? Pergunto. Como é possível?

Lágrimas escorriam pelas suas faces.

Eram as lágrimas da humanidade que protestavam contra a brutalidade dessa mesma humanidade.

E abaixo, algumas imagens do Holocausto armênio

terça-feira, 25 de janeiro de 2011


O árabe que escolheu ser índio

No deserto dizem que quem procura vingança deve cavar duas sepulturas.Talvez isso explique a história de Rachid Nasr ad-Din que lutou ao lado dos índios americanos contra os colonos brancos na última metade do século XVI.

Tudo começa quando ele parte em busca de vingança, porque uma adolescente de sua tribo fora seqüestrada 100 anos atrás por um jovem de outra tribo que havia se apaixonado por ela. Como no deserto o tempo não conta, nem as mortes que se sucederam nesses 100 anos de vingança e contra-vingança, agora cabia a ele lavar a honra de sua gente pela desfeita. Mas, por entender que já era tempo de colocar um ponto final nessa história, e não querendo cavar duas sepulturas, atravessou o deserto até o oceano em busca de novas terras onde pudesse recomeçar sua vida. Virou presa de guerra, quando o barco em que viajava foi capturado por piratas no norte da África, que o venderam como escravo nos Estados Unidos.

Seu comprador queria que o ajudasse na captura de índios cujas cabeleiras valiam fortunas na Europa, utilizadas para fazer perucas que os nobres e mais abastados usavam para cobrir suas cabeças raspadas por causa dos piolhos.

As caçadas aos índios eram realizadas pelos colonos em grupos, diariamente.Ninguém era poupado, nem mulheres, nem crianças.Os pedidos de novos escalpos não cessavam de chegar.

 Estarrecido com tamanha brutalidade, Nasr ad-Din, conseguiu escapar acabando por juntar-se aos índios, ao lado dos quais lutou contra os escalpeladores. Mais tarde casou-se com uma princesa índia.

A história registra que Nasr ad-Din foi o primeiro não nativo a navegar pelo rio Hudson.

E abaixo vocês assistem a um vídeo sobre a Palestina antes da catástrofe de 1948

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

O mundo não é um Golem[1]

Uri Avnery, Gush Shalom [Bloco da Paz] *


Israel, como todos sabemos, é a terra do impossível sem limites. Em Israel, por exemplo, diplomatas fazem greve.

Greve de diplomatas? Impossível! Carteiros fazem greve. Estivadores. Mas diplomatas? O que poderia ser mais conservador, mais ‘establishment’, que os diplomatas? Em Israel, servem o governo, seja qual for. Diplomata é gente que encontra explicações para o que fazem os governos, façam o que fizerem.

Pois em Israel, é possível: os diplomatas israelenses, todo o serviço diplomático, todo o ministério de Negócios Exteriores cruzaram os braços. Estão em greve. Nada de passaportes para os cidadãos que perderam os documentos em Moscou, nem ajuda do consulado a cidadãos que estejam mofando num xadrez em New York. Pararam todos os preparativos para a visita de Binyamin Netanyahu a Paris.

Há anos, o pessoal diplomático trabalha sob condições miseráveis. Os salários beiram o ridículo. Então... entraram em greve.

O primeiro-ministro está furioso? O ministro dos Negócios Exteriores perdeu o sono? Nem de longe. Netanyahu não moveu um dedo para por fim à greve, e Avigdor Lieberman não deu um passo para tentar levar seus funcionários de volta às mesas de trabalho. Não dão a mínima. Ao contrário, parecem contentíssimos. No que dependa deles, que a greve continue para sempre.

E estão certíssimos. Essa semana, todos vimos o quão certos estão.

O presidente da Federação Russa, Dmitry Medvedev, tinha visita marcada a Israel. Mas antes, foi a Jericó, considerada a mais antiga cidade do mundo. Ali, na presença do presidente Mahmoud Abbas, declarou que a Rússia reconhecera o Estado palestino há muito tempo e que continua a reconhecer o direito dos palestinos a terem seu Estado, com a capital em Jerusalém Leste.

Não é bem assim. Não foi a Rússia que reconheceu a Palestina, mas a União Soviética. E reconheceu o Estado virtual que Yasser Arafat declarou em 1988. É coisa muito diferente de reconhecer o Estado palestino agora, quando já se aproxima de tornar-se realidade.

Depois de visitar Jericó, Medvedev deveria ir a Jerusalém, para ser fotografado ao lado de Binyamin Netanyahu e apertar a mão de Avigdor Lieberman. Como Netanyahu reagiria à declaração de Jericó? Como arrancar-se do atoleiro, como afastar-se da questão sem se auto-humilhar e sem ofender o maior país do mundo?

A greve dos diplomatas israelenses resolveu o problema. Recusaram-se a preparar a visita e organizar as reuniões. Medvedev entendeu, e os dois grandes estadistas – Netanyahu e Lieberman – respiraram aliviados.

No fundo do coração, Lieberman com certeza encantou-se com a atitude do pessoal que trabalha para ele, e que ele odeia. Dessa vez, salvaram-lhe a pele. O que poderia dizer a Medvedev? Desde que entrou no ministério de Negócios Exteriores como um elefante em loja de porcelana, não faz outra coisa além de repetir que mantém magníficas relações com a Rússia. Os EUA o amaldiçoam? Quem liga? EUA são império decadente. Os europeus não querem recebê-lo? Quem liga? Quem, afinal, os europeus pensam que são?

Mas a Rússia é a Rússia. Ali, sim, temos amigos de verdade. Lieberman é admirador de Vladimir Putin, aquele grande democrata, que sabe lidar com gentinha, como os chechenos. Lieberman e Putin têm a mesma língua-mãe. Lieberman não se cansa de pavonear-se de que mantém relações íntimas com a Rússia. E, agora, a Rússia lhe faz essa falseta. Que desgraça!

A verdade é que Putin não é amigo de Lieberman. Yvette Lieberman (esse é seu nome verdadeiro) só tem um amigo no mundo: Aleksandr Lukashenko, Presidente da Bielorrússia, “o último ditador na Europa”.

Sim, Lieberman não nasceu em Bielorrússia, mas na Moldávia Soviética. Mas não há dúvidas de que Bielorrússia é sua segunda pátria. Passava férias em Minsk, capital da  Bielorrússia. Escondeu-se lá, quando, precisou chantagear (de fato, nem precisava) Netanyahu, até que “Bibi” implorou-lhe que se unisse ao governo de coalizão.

Lukashenko é sua alma gêmea. Seu modelo. Aprendeu com ele a lidar com organizações de direitos humanos. É fórmula patenteada pelo presidente da  Bielorrússia, apenas licenciada para o líder do partido “Israel nosso lar”. Foi Lukashenko quem mandou aviso oficial aos ativistas de direitos humanos em seu país, ameaçando-os com pesadas penas se continuassem a “distorcer informações” sobre a Bielorrússia.

“O ministério da Justiça distribuiu alerta por escrito”, diz o texto, “para o Comitê Helsinki sobre a Bielorrússia, a propósito de violações da lei sobre organizações civis e mídia e por distribuir informação falsa que desmoraliza as agências de aplicação da lei e distribuição de justiça do país”. A polícia invadiu sedes de organizações de direitos humanos e a KGB (sim, os velhos nomes sobrevivem na Bielorrússia) abriu uma investigação oficial.

Daí Lieberman colheu a inspiração, quando declarou guerra à paz e aos ativistas dos direitos humanos em Israel, os quais, essa semana, chamou de “colaboradores do terrorismo”. Não falo línguas eslavas, mas tenho certeza de que a expressão soa muito mais autêntica em bielorrusso que em hebraico.



Há quem ria (pelo menos por enquanto) de Lieberman dizer que as organizações do campo da paz e defensoras dos direitos humanos ‘deslegitimam’ o Estado de Israel e deslegitimam, sobretudo, o exército israelense.

Mas não se pode rir da própria deslegitimação. Cada dia que passa, mais e mais governos reconhecem o Estado da Palestina, e, no processo, batem pesado no ouvido do governo de Netanyahu.

Quando o Conselho Nacional Palestino declarou, há 22 anos, a fundação do estado palestino independente, cerca de 110 países reconheceram o novo estado. Todos elevaram as delegações palestinas ao status de embaixadas. O governo de Israel ignorou-os. Para o governo de Israel, seria declaração vazia e reconhecimento sem significado. Nada foi alterado. Aos olhos do governo de Israel, outra colônia exclusiva para judeus na Cisjordânia seria mais importante que a opinião de uma centena de países. Como dizem em iídiche: Oilam Goilam – o mundo é um Golem (o monstro imbecil das lendas judias.).

Mas a nova onda de reconhecimentos do Estado palestino é coisa completamente diferente. Quando países importantes como Brasil, Argentina e Chile reconhecem a Palestina, arrastando com eles outros países latino-americanos, a coisa é importante. Quando a Rússia renova o reconhecimento, pela voz de seus mais altos representantes e em solo palestino, é evento importantíssimo. Se todos estão confiantes no apoio inabalável dos EUA, ao qual Israel se habituou, devem começar a prestar atenção a pequenas notícias que apareceram essa semana: a delegação permanente da OLP em Washington DC foi autorizada a hastear a bandeira palestina à entrada do prédio – direito de que só gozam as embaixadas.

Está em andamento, um interessante roteiro. Dois terços dos países do mundo já reconheceram o Estado da Palestina, e a onda cresce. Já não são apenas pequenos Estados do Terceiro Mundo, mas atores significativos do cenário mundial. Mahmoud Abbas e Salam Fayad continuam silenciosa e persistentemente a construir as instituições do Estado da Palestina. Estão empenhando muito esforço no trabalho de desenvolver e construir uma nova cidade ao norte de Ramallah, limitando os poderes das forças de segurança e ganhando a simpatia e a atenção de governos em todo o mundo.

E daí? – pergunta o israelense médio. Afinal, os Goyim só estão provando, utra vez, que são antissemitas. Que importância tem o que façam os palestinos? Nós mandamos no território e nenhum truque diplomático pode mudar isso. E enquanto os EUA nos apoiarem irrestrita e ilimitadamente, pouco nos importa quem reconheça o quê.

Será mesmo? Por muitos anos Israel confiou cegamente nos EUA. Não havia resolução ‘anti-Israel’ que não fosse imediata e firmemente vetada pelos EUA. Mas... isso continua a ser o que antes foi? Quando tantos países importantes do mundo reconhecem o Estado da Palestina – que importância terá que os EUA, sozinhos, jamais reconheçam? 

Enquanto os diplomatas israelenses fazem greve, uma nova iniciativa contra a construção de colônias exclusivas para judeus em territórios palestinos ocupados ganha força no Conselho de Segurança da ONU. Todo o planeta é contra essas construções, que são manifestamente ilegais e contrárias à lei internacional. Até os EUA já pediram o fim das construções. Os EUA conseguirão vetar alguma resolução que manifeste sua própria política, sem se tornarem, os EUA, motivo de escárnio universal? E se correrem o risco, e vetarem, e se tornarem motivo de escárnio universal dessa vez... o que acontecerá da próxima vez, e depois, e depois?

E se o vetos do EUA controla o Conselho de Segurança – não controla a Assembleia Geral da ONU. Em 1947, foi a Assembleia Geral, não o Conselho de Segurança, que decidiu por na Palestina, lado a lado, um Estado judeu e um Estado muçulmano árabe. Se a Assembleia decidir que é mais que hora de realizar a segunda metade daquela resolução – e estabelecer o Estado muçulmano e árabe na Palestina – estará apenas reforçando o reconhecimento da Palestina que, hoje, já é praticamente planetário.

Os governos árabes, que muito têm falado a favor da causa palestina, mas até agora não moveram uma palha a favor de ajudar a criar o Estado palestino – devem agora pensar novamente.

Na Tunísia, o povo levantou-se contra uma ditadura igual a tantas outras ditaduras árabes – uma pequena gangue corrupta, indiferente aos desejos do povo e mais declaradamente ou menos declaradamente sempre ao lado de Israel.

Durante os 13 anos que Yasser Arafat viveu na Tunísia, visitei-o lá várias vezes. Sempre soube que por trás da fachada liberal e atraente, havia um duro e repressivo estado policial. Mas via os homens tunisianos pelas ruas, com uma flor de jasmim presa atrás da orelha (chamam Shmum), e nunca imaginei que ali, dentre todos os lugares do mundo, brotaria a primeira revolta popular no mundo árabe.

Pois aconteceu. E na Tunísia. É sinal de despertar para todos os países árabes, do Marrocos a Omã, aviso de que cairão todos os ditadores, de que todos tratem de criar regimes liberais democráticos; e que se não o fizerem, por todos os cantos brotarão regimes islâmicos.

Está escrito pelas paredes. O atual governo de Israel empurra o país rumo ao desastre. Essa semana, Israel afundou mais um pouco, quando Ehud Barak, Napoleão-de-bolso-de-colete, finalmente deixou cair a fantasia de esquerda social democrática e inventou um partido assumidamente de direita, uma espécie de Likud II – parceiro leal de Netanyahu e Lieberman.

Com esse governo, Israel precisaria de algum outro inimigo?

*No folclore judaico, o golem (גולם) é um ser animado, feito de material inanimado, muitas vezes visto como um gigante de pedra. No hebraico moderno a palavra golem significa "tolo", "imbecil", ou "estúpido". O nome é uma derivação da palavra gelem (גלם), que significa "matéria-prima" [mais, em http://pt.wikipedia.org/wiki/Golem].

**Traduzido pelo coletivo Vila Vudu

sábado, 22 de janeiro de 2011

Um fato irrelevante

O velho me pergunta o número do ônibus que se aproxima. E antes que eu pudesse responder, explica constrangido que não sabe ler nem escrever. Carrega nas faces um misto de tristeza e sofrimento, a pele seca, o corpo encurvado e os calos das mãos anunciando que passaram a vida inteira pegando no pesado. Uma vida de trabalho que não lhe deu a oportunidade de aprender os garranchos necessários para se locomover sem constranger a ele e ao próximo. E agora seus olhos procuram algo em que se agarrar num ponto qualquer do horizonte.

O drama de sua vida passa pela necessidade diária de continuar batalhando pela sobrevivência, fazendo extras que ajudem a moralizar o salário mínimo de aposentado. As dificuldades não são poucas. Foi proibido pelos filhos de ficar doente sob pena de ter que se virar sozinho. São quatro os filhos, todos empregados com carteira assinada, eleva a voz com orgulho. Dois casados, nenhum ganha mais de 800 reais por mês. Vivem espremidos num casebre que nos fins de semana recebe alguns tijolos que o tempo deverá transformar em cômodos. O dele, avisaram, será o último, mas ele acha que vai morrer antes. É que ultimamente tem sentido umas dores esquisitas e uma tontura teimosa. Médico, nem pensar, porque da última vez perdeu dois dias na fila do hospital. E no dia da consulta, marcado para seis meses depois, o doutor faltou.

Preocupava-o o fato de ainda não ter garantido seus quatro palmos de terra. Ele que sempre sonhou com uma campa e uma lápide com o nome gravado.
Sempre procurou Deus, mas nunca o encontrou.

Estamos nos aproximando das catraias que fazem o transporte entre Vicente de Carvalho e Santos. O balanço das águas por pouco não o atira ao mar, atrapalhando o bico que faz nos arredores do Mercado Municipal.

Morreu no dia seguinte sem dar a Deus a oportunidade de uma segunda chance.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A homenagem de Rafael



No afresco Escola de Atenas, considerada uma das maiores obras de Rafael, Abu-l-Walid Muhammad Ibn Rushd, aparece ao lado de Sócrates e Platão na Academia. Foi a maneira que o genial pintor e arquiteto italiano encontrou para homenagear um dos luminares da humanidade.

Mas quem foi esse muçulmano que os árabes chamavam simplesmente de Ibn Rushd e o Ocidente de Averroes?

O orientalista francês Ernest Renan, que não era simpatizante dos árabes ou dos muçulmanos, escreveu que na Europa Renascentista “Averroes e os árabes eram para os Livre Pensadores do Norte da Itália um santo e uma senha”. E que ninguém podia “aspirar ao título de filósofo a menos que jurasse por Averroes”.

Erasmo de Rotterdam, Descartes, John Locke, Kant e Spinoza, só para citarmos alguns, beneficiaram-se também de sua sabedoria. Eram tão profundas as questões filosóficas de Ibn Rushd que um dos Doutores da Igreja, Santo Tomas de Aquino, passou a vida tentando explicar uma delas que versava sobre  Essência e Existência, questão essa que perdura até hoje.

 Averroes foi apenas um entre tantos sábios muçulmanos. Esses mesmos muçulmanos que hoje são vítimas de uma campanha difamatória liderada pela mídia ocidental. Depois de desumanizarem os palestinos, para que a humanidade assista passivamente aos massacres diários, querem, porque querem, vender a imagem de que todo muçulmano é terrorista. Como se os muçulmanos tivessem sido responsáveis pela Inquisição, pelas duas guerras mundiais e pelas bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki.

Mas ouçamos o que o grande humanista Francesco Petrarca tem a dizer: “Cícero pôde ser orador depois de Demóstenes; Virgílio pôde ser poeta depois de Homero e agora, depois dos árabes, não deveríamos nos atrever a escrever”.

Que o diga Dante Alighieri.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011


Líbano: Os indiciados no caso Hariri *

Robert Fisk, The Independent,UK 



Uma gravação terrivelmente embaraçosa, na qual se ouve Saad Hariri, o primeiro-ministro que acaba de perder o posto no Líbano, acusando os sírios de serem responsáveis pelo assassinato de seu pai; uma ameaça, por aliados do Hezbollah, de acusar Hariri por prática de corrupção; e o medo – que todos, todos, sentem no Líbano – de que o Tribunal do Conselho de Segurança da ONU para o Líbano tenha indiciado membros do Hezbollah por participação no atentado que resultou no assassinato de Rafiq Hariri em 2005 converteu em pesadelo a atual crise política. 



Mas estamos no Líbano, e sempre há elementos da mais pura farsa, a sugerir que as televisões locais, praticamente todos os políticos libaneses, iranianos, norte-americanos, israelenses e sírios – além de parte significativa da mídia mundial – nada fizeram além de mentir descaradamente, para conseguir afogar o país num banho de sangue.



Já há meses, jornalistas estrangeiros e políticos libaneses só fazem avisar que o Tribunal da ONU estaria “na iminência” de acusar vários membros do Hezbollah pelo assassinado de Hariri sênior, também primeiro-ministro.

De fato, o procurador do Tribunal da ONU já encaminhou a peça acusatória, para a revisão legal antes de encaminhá-la oficialmente, ao pré-juiz Daniel Franson.

Mas o pré-juiz pode discordar dos argumentos que ler, pode adiar o encaminhamento e pode até – parece que sim – aceitar a peça construída pela acusação, sem ter de revelar os nomes dos acusados.



O conteúdo daquela peça acusatória foi “revelado” primeiro pela revista Der Spiegel – conhecida por receber matérias de fontes israelenses (23/5/2009, em http://www.spiegel.de/international/world/0,1518,626412,00.html, e depois foi divulgado também pelo Wall Street Journal – que também, não raras vezes, recebe material de fontes israelenses – antes de um jornal israelense citar o nome de um dos acusados, que seria parente do também assassinado comandante da inteligência do Hezbollah pró-Irã Imad Mughniyeh (Wall Street Journal, 8/10/2010: [o nome que apareceria na peça acusatória seria o de] “Mustafa Badreddine, alto comandante militar do Hezbollah e cunhado de Imad Mughniyeh”, em http://online.wsj.com/article/SB10001424052748703665904575600374005892944.html).

O Hezbollah não gostou. Diz que a prisão de vários funcionários de uma empresa de telefones celulares no Líbano prova que Israel grampeava vários telefones no dia em que Rafiq Hariri foi assassinado – Dia dos Namorados de 2005 – e que aquelas quatro “falsas testemunhas” que cometeram perjúrio ante a ONU, elas sim, deveriam já estar presas.

Informações dadas por aquelas quatro falsas testemunhas foram usadas para prender quatro generais da segurança do Líbano, mantidos presos por quatro anos sem qualquer acusação formal – até que a ONU, terrivelmente embaraçada, foi obrigada a mandar libertá-los.

 E agora a rede de televisão libanesa New TV apareceu com uma fita gravada[1], em que se ouve Saad Hariri, em conversa com Muhamed Zuhair Siddiq, uma daquelas “falsas testemunhas”, e um funcionário da ONU. Naquela fita, ouve-se a voz de Hariri, que diz que “estamos todos convencidos de que os assassinos [de Rafiq Hariri] são os sírios”, ao que Siddiq responde “Se vocês querem insistir nisso, devem começar por responder aos que contaram essas mentiras, especialmente entre os estados árabes...” 



Numa resposta confusa, Hariri, que ainda permanece oficialmente como primeiro-ministro do Líbano, explicou que a frase foi extraída do contexto, que a fita deve envolver serviços de segurança, e que falou “há muitos anos, em circunstâncias políticas que todos conhecem”. 

A fita foi gravada em 2005, e Hariri depois expressou “desculpas pessoais a todos os amigos mencionados naquelas conversações”. Deve-se presumir que aí esteja incluído o alto governo sírio, cujas relações pessoais com Hariri estão perfeitamente recompostas.

Para piorar, o ex-general Michel Aoun, um estranho apoiador cristão de Hassan Nasrallah secretário-geral do Hezbollah, disse que Hariri mereceria perder “seus direitos civis” por prática de “corrupção massiva” – em outras palavras, que deveria ser preso, bem como os deputados do “Movimento 14 de Março” da maioria, se continuassem associados a Hariri.



Ninguém precisa entender todas as nuanças desse autêntico teatro libanês – muitos libaneses também não entendem –, para perceber que muita gente está dizendo quantidades imensas de sandices, como, dentre outros, a secretária de Estado dos EUA Hillary Clinton, que continua a repetir que o Tribunal da ONU tem de “ser respeitado”, mesmo agora, que a maioria dos libaneses só deseja fugir para o mais longe possível daquele tribunal. Mas o Hezbollah derrubou o governo Hariri ao retirar-se do Gabinete, e Nasrallah está compreensivelmente preocupado – não estivesse, não estaria chamando de “traidores” todos os que cooperem com a ONU; e muitas “falsas testemunhas” estão muito mais preocupadas que ele.

A ONU, claro, está fazendo papel de idiota. Parece que alguém já sabe quem matou Rafiq Hariri. Multidões de libaneses prendem a respiração, querendo nunca saber.


[1] Sobre essa fita, ver também o que disse o secretário-geral do Hizbollah Nassan Nasrallah, pela rede Al-Manar de televisão, dia 17/1/2011 (em http://redecastorphoto.blogspot.com/2011/01/sayyed-nasrallah-fala-tv-al-manar.html, em português).
*Tradução Coletivo Vila Vudu