A primeira vez que a ouvi cantar foi em fins dos anos 40. Eu devia ter uns cinco anos de idade. Lembro de nossa aldeia no Líbano, sobre o Mediterrâneo, espremendo-se diante do aparelho de rádio para ouvi-la desde o Cairo.
E o que ela cantava?
Textos de grandes poetas que relembravam o grandioso passado árabe ou Rubayat, de Omar Khayyam, ou ainda, as Mil e Uma Noites.
Sua voz levava as pessoas ao delírio. O acompanhamento era feito por um pequeno conjunto onde o alaúde ou a injáirah (flauta de bambu) faziam a pontuação antes do mauál.
Umm Kulthoum(1904-1974) foi, e continua sendo, a maior cantora árabe de todos os tempos. Apesar de ter morrido há mais de três décadas, continua mais viva do que nunca. Foi um dos pilares da recuperação da auto-estima árabe, depois de séculos de domínio turco, inglês e francês. Evidente que houve outros que ajudaram nessa recuperação, mas ela continua sendo unanimidade. Absoluta.
Quando morreu, Cairo tornou-se pequena para os milhões que saíram às ruas para lhe prestar homenagens. O trajeto de vários quilômetros até o cemitério estava completamente tomado. Não se conseguia dar um passo. Por isso, o caixão acabou deslizando, imponente, por cima das cabeças, sobre um mar de mãos.
Hoje, aceita-se com naturalidade que uma mulher seja cantora. Mas naquele tempo não era nada fácil sair de casa e muito menos ainda exibir-se em público. Houve vários casos de pais que mandaram matar as filhas que pretendiam seguir a carreira artística.
Mas ela soltou a voz e cativou milhões.
Numa de minhas viagens como repórter ao Oriente Médio, peguei um táxi em Damasco, capital da Síria e segui até Beirute, capital do Líbano. Uma distância de mais ou menos 120 quilômetros, dependendo dos humores dos combatentes e da violência dos combates.
Pouco depois de atravessarmos a fronteira sírio-libanesa, um combatente druso pediu carona. Um quilometro adiante, acolhemos outro combatente, pertencente a um movimento islâmico. Minutos depois, foi a vez de um combatente palestino fazer o sinal.
Depois dos cumprimentos de praxe, passaram a amaldiçoar Israel.
É que a todo instante nosso carro buscava abrigo para se ocultar dos vôos rasantes dos aviões daquele país. Mas os pilotos simplesmente nos ignoraram. Diria até, nos desprezaram, para frustração e revolta dos combatentes. O que aumentou as maldições.
Esgotados os adjetivos, agradeceram quando o motorista decidiu procurar entre as diversas estações de rádio árabes alguma menos verborrágica.
Inútil.
Tensos e cansados, ensaiavam novas maldições, quando o combatente palestino lembrou ao motorista que aquele dia era quinta feira.
Quinta feira! Gritou o combatente islâmico que ia desembarcar no Vale do Bekaa. Quinta feira! Confirmou o combatente druso, que ia até as montanhas de Chuf. Os três, mais o motorista, olharam para mim e falaram ao mesmo tempo num tom de alegria exultante: hoje é quinta feira, Al-hamdu-liláh ( Louvado seja Deus)!
E a voz de Umm Kulthoum fez-se ouvir.
Ao desembarcar em Beirute, perguntei ao motorista o que significava a quinta-feira. Aí então fiquei sabendo que todas as quintas-feiras, a Rádio de Israel dedica sua programação árabe para as músicas de Umm Kulthoum. Não preciso dizer que, apesar de todas as maldiçoes, aquela rádio era líder de audiência.
E as estações dos países árabes, como reagem a essa penetração israelense?
Com discursos.
Por serem estações oficiais, acreditam que a voz dos dirigentes de seus países são mais harmoniosas que a lira de Orfeu.
Aos que perguntam porque não se usam toca-fitas, informo que num país em guerra, o rádio é imprescindível como veículo de informação.
É importante ressaltar que tudo que Umm Kulthoum ganhava, e ganhava muito, era doado integralmente aos movimentos de independência e anticolonialistas árabes.
Conta a lenda que um fato significativo ocorreu na década de 50, quando a televisão egípcia preparava-se para inaugurar suas transmissões. Surgiu uma discussão sobre qual seria a primeira imagem. Para um país tão rico em cultura, não era uma tarefa fácil. Havia o rio Nilo, as Pirâmides, a Esfinge, Luxor, os Faraós, Cleópatra e muitos outros personagens históricos. Mas também havia Násser, campeão do anticolonialismo e até então o mais respeitado líder árabe.
E, dúvida cruel, havia também ela, Umm Kulthoum.
A primeira imagem transmitida apresentou lado a lado, Umm Kulthoum e Násser em primeiro plano, com a esfinge e as pirâmides ao fundo.
E abaixo vocês ouvem um pequeno trecho de uma das canções de Umm Kulthoum, de 1960. A gravação, feita durante uma de suas apresentações no Marrocos, é de 1968.







