sexta-feira, 29 de abril de 2011

                  Umm Kulthoum




A primeira vez que a ouvi cantar foi em fins dos anos 40. Eu devia ter uns cinco anos de idade. Lembro de nossa aldeia no Líbano, sobre o Mediterrâneo, espremendo-se diante do aparelho de rádio para ouvi-la desde o Cairo.

E o que ela cantava?

Textos de grandes poetas que relembravam o grandioso passado árabe ou Rubayat, de Omar Khayyam, ou ainda, as  Mil e Uma Noites. 

Sua voz levava as pessoas ao delírio. O acompanhamento era feito por um pequeno conjunto onde o alaúde ou a injáirah (flauta de bambu) faziam a pontuação antes do mauál.

Umm Kulthoum(1904-1974)  foi, e continua sendo, a maior cantora árabe de todos os tempos. Apesar de ter morrido há mais de três décadas, continua mais viva do que nunca. Foi um dos pilares da recuperação da auto-estima árabe, depois de séculos de domínio turco, inglês e francês. Evidente que houve outros que ajudaram nessa recuperação, mas ela continua sendo unanimidade. Absoluta.

Quando morreu, Cairo tornou-se pequena para os milhões que saíram às ruas para lhe prestar homenagens. O trajeto de vários quilômetros até o cemitério estava completamente tomado. Não se conseguia dar um passo. Por isso, o caixão acabou deslizando, imponente, por cima das cabeças, sobre um mar de mãos.

Hoje, aceita-se com naturalidade que uma mulher seja cantora. Mas naquele tempo não era nada fácil sair de casa e muito menos ainda exibir-se em público. Houve vários casos de pais que mandaram matar as filhas que pretendiam seguir a carreira artística.

Mas ela soltou a voz e cativou milhões.

Numa de minhas viagens como repórter ao Oriente Médio, peguei um táxi em Damasco, capital da Síria e segui até Beirute, capital do Líbano. Uma distância de mais ou menos 120 quilômetros, dependendo dos humores dos combatentes e da violência dos combates.

Pouco depois de atravessarmos a fronteira sírio-libanesa, um combatente druso pediu carona. Um quilometro adiante, acolhemos outro combatente, pertencente a um movimento islâmico.  Minutos depois, foi a vez de um combatente palestino fazer o sinal.

Depois dos cumprimentos de praxe, passaram a amaldiçoar Israel.

É que a todo instante nosso carro buscava abrigo para se ocultar dos vôos rasantes dos aviões daquele país. Mas os pilotos simplesmente nos ignoraram.  Diria até, nos desprezaram, para frustração e revolta dos combatentes. O que aumentou as maldições.

Esgotados os adjetivos, agradeceram quando o motorista decidiu procurar entre as diversas estações de rádio árabes alguma menos verborrágica.

Inútil.

Tensos e cansados, ensaiavam novas maldições, quando o combatente palestino  lembrou ao motorista que aquele dia era quinta feira.

Quinta feira! Gritou o combatente islâmico que ia desembarcar no Vale do Bekaa. Quinta feira! Confirmou o combatente druso, que ia até as montanhas de Chuf.  Os três, mais o motorista, olharam para mim e falaram ao mesmo tempo num tom de alegria exultante: hoje é quinta feira, Al-hamdu-liláh  ( Louvado seja Deus)!

E a voz de  Umm  Kulthoum  fez-se ouvir.

Ao desembarcar em Beirute, perguntei ao motorista o que significava a quinta-feira. Aí então fiquei sabendo que todas as quintas-feiras, a Rádio de Israel dedica sua programação árabe para as músicas de Umm Kulthoum.  Não preciso dizer que, apesar de todas as maldiçoes, aquela rádio era líder de audiência. 

E as estações dos países árabes, como reagem a essa penetração israelense? 

Com discursos.

Por serem estações oficiais,  acreditam que a voz dos dirigentes de seus países são mais harmoniosas que a lira de Orfeu.

Aos que perguntam porque não se usam toca-fitas, informo que num país em guerra, o rádio é imprescindível como veículo de informação.

É importante ressaltar que tudo que Umm Kulthoum ganhava, e ganhava muito, era doado integralmente aos movimentos de independência e anticolonialistas árabes.

Conta a lenda que um fato significativo ocorreu na década de 50, quando a televisão egípcia preparava-se para inaugurar suas transmissões. Surgiu uma discussão sobre qual seria a primeira imagem. Para um país tão rico em cultura, não era uma tarefa fácil. Havia o rio Nilo, as Pirâmides, a Esfinge, Luxor, os Faraós, Cleópatra e muitos outros personagens históricos. Mas também havia Násser, campeão do anticolonialismo e até então o mais respeitado líder árabe.

E, dúvida cruel, havia também ela, Umm Kulthoum.

A primeira imagem transmitida apresentou lado a lado, Umm Kulthoum e Násser em primeiro plano, com a esfinge e as pirâmides ao fundo.

E abaixo vocês ouvem um pequeno trecho de uma das canções de Umm Kulthoum, de 1960. A gravação, feita durante uma de suas apresentações no Marrocos, é de 1968.

quinta-feira, 28 de abril de 2011


Da tolerância e da morte




Em sua obra Viagem Religiosa ao Oriente, o presbítero Michou escreveu: “É triste para as nações cristãs que a tolerância religiosa, que é a grande lei da caridade de um povo para com o outro, lhes tenha sido ensinada pelos muçulmanos”.

Talvez isso explique porque o islamismo não para de crescer, alcançando, por enquanto, a cifra de um bilhão e 300 milhões de fiéis.

Hoje o islamismo é também a religião da emancipação e da liberdade. Basta ver o que ocorre nos Estados Unidos. Ali, para enfrentar o racismo, os negros ou afro-americanos precisaram abraçar a fé do Profeta Muhammad ( Maomé ). E de nada tem adiantado a campanha difamatória da mídia ocidental, que hoje lidera a nona cruzada, na tentativa de remeter a humanidade  à Idade Média.

Sobre a mídia não há muito o que dizer. Filha dileta da Inquisição, sua arrogância é proporcional ao seu poder que ela usurpou através do tempo.

Essa mídia obedece a governos que vivem da morte e precisam da morte. Regiamente patrocinada batalha para transformar as indústrias bélica e do narcotráfico na oitava economia do Mundo.

Quanto aos seus co-patrocinadores israelenses, cabe a parábola do bem com o mal se paga.

Na Enciclopédia Judaica espanhola está escrito que a época de maior esplendor do judaísmo aconteceu sob os governantes muçulmanos.

Em retribuição a entidade sionista usurpadora e seus esbirros, não satisfeitos com os massacres diários de semitas palestinos, têm como alvo, também preferencial, a destruição da cultura desse povo na vã tentativa de apagar o passado.

 Os criminosos precisam entender que é impossível escravizar um povo que não tem medo de morrer.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Qual é o sentido da vida?


Há os que procuram um sentido entre os deuses
Há os que procuram um sentido entre as estrelas
E há os conformistas
Destes é o reino dos céus, dizem os deuses
São a desdita da humanidade, dizem as estrelas

Afinal, qual é o sentido da vida?

terça-feira, 26 de abril de 2011

O sacrifício

Fátima An-Najar é uma daquelas avós que carregam toda a dor e o sofrimento da humanidade. Seu nome evoca a filha do profeta Muhammad (Maomé) e o sobrenome a profissão de José, pai de Jesus.

Aos 67 anos de idade despediu-se do mundo explodindo o corpo em protesto contra a ocupação israelense.

Para a mídia foi apenas mais um número a contabilizar; para os palestinos mais uma mártir que partia. Antes dela, os israelenses haviam assassinado seu marido, dois filhos e um dia antes de sua morte, um neto de 17 anos.

O martírio de Fátima foi a culminância de um mês de massacres contra seu povo pelas tropas sionistas. Primeiro o assassinato frio e cruel de 18 mulheres e crianças em suas casas enquanto dormiam. A isso, a mídia ocidental denominou “incidente”. As vítimas não tinham nome, não tinham rosto, não tinham sonhos. Eram apenas números.

E em “outro incidente”, de acordo com a mídia ocidental, suas tropas dispararam contra 50 mulheres palestinas que tentavam proteger 60 refugiados em uma mesquita. Vejam que comportamento mais imoral dessa mídia. Para não criticar os carrascos israelenses, justificam o massacre acusando as 50 mulheres de servir de escudo para proteger 60 “militantes”. Vocês repararam nos números? 50 mulheres e 60 refugiados numa mesquita.

Não falam em 60 mães desesperadas tentando salvar os filhos.

Isso me lembra o jornalismo praticado na época da ditadura. Torturava-se até a morte e depois alegava-se suicídio ou atropelamento... Com o beneplácito dessa mesma mídia. Pergunto: alguma coisa mudou?

Fátima An-Najar, 67 anos, mãe, avó, palestina.
Fátima An-Najar, 67 anos, sacrificou-se em nome da humanidade!

E abaixo você assiste a mais uma manifestação de arrogância de um soldado israelense que dança para humilhar uma jovem palestina manietada. 

sábado, 23 de abril de 2011

Miniara minha aldeia


Hoje vou falar de um tema que me toca profundamente. Vou falar de minha aldeia, Miniara-Akkar, que fica no topo de uma montanha e tem o mediterrâneo a seus pés. Miniara é uma daquelas aldeias milenares que ornam o Líbano. Foi ali que nasceu o imperador romano Alexandre Severo e Israel destruiu minha infância.

Vivi em Miniara até os 10 anos de idade, filho de pai libanês e mãe baiana.

Miniara é uma aldeia cristã e resistiu ao cerco dos cruzados durante três meses, até que os escorraçamos em maio de 1099. Dirão, mas se a aldeia era cristã por que enfrentou os cruzados? Simples. Entender que os cruzados defendiam o cristianismo é o mesmo que entender que os israelenses defendem o judaísmo. A exemplo dos cruzados, os israelenses entendem mais de saques, massacres e genocídio do que de fé.

(Dez anos mais tarde os cruzados avançarão sobre a cidade de Trípoli, a 15 quilômetros de Miniara,  massacrarão a população e queimarão os 100 mil volumes de sua Biblioteca Dar-Al-Ilm. Israel fará o mesmo passados mil anos, mas ao contrário dos cruzados, suas tropas jamais tiveram coragem de lutar corpo a corpo).

Da neve, vou falar da neve que cobria a aldeia no inverno, dos lobos que rondavam a nossa casa em busca de alimentos e de seus uivos que cortavam as noites de lua cheia; das flores e perfumes da primavera que arrebatavam os rouxinóis cujo canto atravessava a alvorada e cessava somente ao por do sol; do outono quando as folhas se despediam das árvores e forravam o chão de ouro; do verão, ah! o tão esperado verão cujo sol abrasante amadurecia os frutos. Quem experimentou subir numa figueira e colheu um delicioso figo terá um sabor permanente a lembrá-lo daquele momento. Dos pessegueiros e das macieiras, das ameixeiras e amoreiras com seus bichos da seda, das nogueiras, amendoeiras e pereiras. Das parreiras nem quero falar porque em nosso quintal, além da sombra que nos propiciavam, mais felizes ainda ficávamos quando colhíamos seus cachos maduros. Minha lembrança me remete a uma em especial, de imensos cachos de uva fina comprida e sem sementes que atendia pelo nome de dedo de noiva.

Entre a aldeia e o mar há uma pequena planície, a planície de Akkar, cujos trigais de espigas douradas balançavam ao sabor do vento dando a sensação de movimento, um enorme tapete mágico.

As aulas eram em período integral, mas havia dias que preferíamos explorar as gigantescas cavernas recheadas de morcegos e de extensão quilométrica, a ouvir o professor fazendo explanações sobre a nossa História milenar. Com certeza essas cavernas serviram de modelo para a construção do labirinto de Creta onde Teseu enfrentou o minotauro.

Incrustados nas cavernas, túmulos fenícios que jamais foram abertos. E o que dizer das moedas romanas que encontrávamos sob os escombros de Arca Caesarea para trocar por doce? Arca, nome que revela sua origem romana, foi soterrada por um terremoto em 1157 e nunca mais se recuperou.

Está escrito na Bíblia que Deus descansou no sétimo dia. Almas piedosas juram que foi em Miniara que Ele encostou a cabeça para tirar uma soneca até ser acordado pelos mísseis israelenses. Imaginem o sobressalto ao notar o estado em que se encontravam os milenares cedros onde Adão e Eva viram a luz pela primeira vez.

Sem exagero, verdade que não há comprovação histórica, diz-se que foi em Miniara que Gilgamesh procurou a planta da imortalidade; que Hamurabi se inspirou para criar o primeiro código da humanidade; que Sargão teve idéia de sua pequenez; que Nabucodonosor, depois de experimentar os frutos, o clima e a beleza de Miniara preferiu passar o resto de seus dias pastando. Em Miniara a Lei de Talião jamais vingou e, dizem os entendidos que se Abel vivesse ali, jamais seria assassinado por Caím, que hoje usa mísseis para praticar os seus crimes.

Havia em nosso quintal e seus arredores inúmeras oliveiras que faziam da colheita da azeitona, festa. Uma era especial que meu avô disse ter sido plantada havia mais de 300 anos e cujas azeitonas e azeite produziam um sabor todo especial. Especial como as parreiras, as ameixeiras e todas as plantas citadas e não citadas.

Foram pulverizadas em segundos e com elas a minha infância. Mísseis cruzaram os céus contra alvos indistintos. E aí se incluem seres humanos.

Estou cansado das análises de gente honesta e outras nem tanto sobre o comportamento dos Estados Unidos e de seu posto militar que atende pelo vulgo de Israel. Sinto informar que há muito passei da fase de visualizar alguma solução para a paz nesse mundo em que vivemos, enquanto prevalecer o atual sistema. É um sistema que vive da crueldade e se  alimenta da exploração do homem pelo homem. O seu combustível é a miséria e a exclusão, seja qual for a geografia ou a língua. O problema da humanidade é a memória. Uma pequena análise resultará na morte violenta de centenas de milhões, vítimas de duas guerras mundiais e de centenas de outras nem tanto, mas tão letais quanto. A falta de memória nos faz esquecer até das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki.

Por isso faça-se a análise que se fizer, mas enquanto houver fronteiras físicas (as outras não existem mais) haverá guerra; enquanto houver um explorado, um oprimido e um excluído haverá guerra. A  mensagem é clara e a solução é simples. O resto é malabarismo de quem não entendeu nada ou não quer abrir mão de seus privilégios.

quarta-feira, 20 de abril de 2011


Publicidade israelense


Uma agencia de publicidade israelense fazendo propaganda de um carro que atropelou duas crianças palestinas.

O texto em hebraico diz:vamos ver quem pode nos enfrentar.

O atropelador foi um colono judeu que sequer prestou socorro às vitimas.

Sinceramente, se os publicitários israelenses entendem que esse tipo de anuncio vende, o que esperar do restante da sociedade judaica?

É triste, muito triste...

Abaixo você assiste ao atropelamento que gerou o anúncio

terça-feira, 19 de abril de 2011


E assim Gaza vai sobrevivendo


 Bombas de fósforo israelenses sobre uma escola em Gaza

Amal tinha sete anos de idade. Vivia em Beit Hanun, Palestina Ocupada. Encontrou a escola fechada pelas tropas de Israel. Na volta para casa foi abatida por um tiro disparado por um colono adolescente judeu que acompanhava as tropas invasoras do Estado sionista. Amal, cujo sorriso iluminava as manhãs sombrias, virou estatística. Ela tornou-se a décima sexta criança palestina assassinada em dois dias.

Hanan, oito anos de idade, foi esmagada por um tanque israelense, também em Beit Hanun. Havia ido comprar pão quando viu as tropas judaicas se aproximando. Com medo, correu para casa. Não conseguiu chegar. E se chegasse não iria encontrar a casa, demolida pelos buldozers. Seu avô Mahmud, de 75 anos, morreu sob os escombros. Os soldados justificaram sua morte dizendo que eles gritaram para que ele saísse. Mahmud, o avô de Hanan, era surdo.

O soldado Izak faz parte das tropas de elite do exército de Israel. Ele é um franco-atirador conhecido pelo apelido de dentista, porque gosta de acertar a boca de suas vítimas. Não costuma errar o alvo, seja de que tamanho for. Como ele há muitos outros que se postam em pontos estratégicos para assassinar palestinos, principalmente em Gaza. Ele está mirando neste momento em  Amira, de seis anos de idade que está na porta do que restou de sua casa. Izak é paciente e não vai atirar enquanto ela não sorrir. Um minuto depois, um sorriso, um estampido e um corpo vai ao chão. A boca de Amira está desfigurada. O tiro arrancou seus dentes e sua vida.

O pequeno Yussef tem sete anos e chora sobre o corpo de seus pais. Seus três irmãos também estão mortos. Eles faziam parte de uma família de nove pessoas, todas assassinadas pelas tropas de Israel enquanto dormiam. Dizem que Yussef sobreviveu por milagre. De longe ele observa o que restou do corpo de sua avó Muna. Ela preparava o café da manhã quando o projétil lançado por um helicóptero não poupou ninguém.

E assim Gaza vai sobrevivendo.

sábado, 16 de abril de 2011


O artigo é longo, merece uma lida e muita reflexão.

Líbia: é a banca central privada, estúpido!

Ellen Brown, “Libya all about oil, or central banking?”, Asia Times Online
http://www.atimes.com/atimes/Middle_East/MD14Ak02.html

Às 16h24 do dia 15/4/2011, esse artigo
 já havia sido citado ou reproduzido em todo o mundo, “aproximadamente 7.830.000 vezes”, cf. o buscador Google.
Na mesma data e mesmo horário não aparecia nem citado em NENHUM grande jornal ou blog jornalístico no Brasil.

Fomos à festa dos cubanos, pelos 50 anos da “Declaração do caráter socialista da revolução cubana” por Fidel Castro, num bar (a festa dos 50 anos, não a declaração!) da Vila Madalena, SP, com a presença do cônsul de Cuba, do José Reinaldo, das Relações Internacionais do PCdoB e de dois representantes dos Sem-Terra, além de belo, sensacional, absolutamente invencível, insuperável, divino rum cubano do bom. – O representante dos Sem-Terra, que levou a mulher e um filhinho, disse que, sem a revolução cubana não haveria o Movimento dos Sem-Terra nem a Escola de Formação dos Sem-Terra. –
E agora, de volta ao computador, às 22h23, o artigo já foi citado ou reproduzido “aproximadamente 10.100.000 vezes”, cf. o mesmo buscador Google.

Até agora, data e horário, o artigo ainda não apareceu sequer citado, em NENHUM jornal ou blog jornalístico no Brasil.

Há algum específico problema do jornalismo brasileiro, que não sabe ver o mundo, e que 
se repete, igualzinho, nos blogs jornalísticos e parece que ninguém vê.
Até quando?

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Vários comentaristas e analistas de economia já observaram o estranho fato de os rebeldes líbios terem tido tempo, em plena rebelião, para criar, em março, seu próprio banco central ‘rebelde’ – antes até de haver governo ou Estado. Robert Wenzel escreveu, no Economic Policy Journal:
“Mais um recorde, para o livro Guiness. Nunca antes ouvi falar de rebeldes que, com alguns dias de rebelião, já criaram um banco central. O movimento sugere que haja algo mais, naqueles rebeldes, além do exército de voluntários, e que podem estar em ação, ali, projetos muito mais sofisticados” (em http://www.economicpolicyjournal.com/2011/03/libyan-rebels-form-central-bank.html
<http://www.economicpolicyjournal.com/2011/03/libyan-rebels-form-central-bank.html> ).
Alex Newman escreveu, no New American:
“Em declaração distribuída semana passada, os rebeldes líbios relataram resultados de reunião realizada dia 19/3. Dentre outros informes, os supostos rebeldes esfarrapados anunciaram “a designação do Banco Central de Benghazi como autoridade monetária competente para definir as políticas monetárias da Líbia, o qual terá sede provisória em Benghazi” (em http://www.thenewamerican.com/world-mainmenu-26/africa-mainmenu-27/6915-libyan-rebels-create-central-bank-oil-company
<http://www.thenewamerican.com/world-mainmenu-26/africa-mainmenu-27/6915-libyan-rebels-create-central-bank-oil-company> ).
Newman citou o editor-chefe da rede CNBC John Carney, que comentou: “Parece-me que seja a primeira vez no mundo, que grupo revolucionário cria banco central ainda durante os combates pelo poder político. Sinal de o quanto são poderosos os banqueiros centrais que estão surgindo nesses tempos extraordinários.”

Outra anomalia também chama a atenção, na justificativa para que os EUA alinhem-se oficialmente ao lado dos rebeldes. Fala-se das violações dos direitos humanos, mas há contradições. Segundo artigo publicado na página internet da rede Fox News, dia 28/2:
“Enquanto a ONU trabalha febrilmente para condenar o ataque de Muammar al-Qaddafi contra manifestantes, o Conselho de Direitos Humanos preparava-se para divulgar relatório carregado de elogios à Líbia, no quesito direitos humanos.
O relatório registra aumento de oportunidades educacionais e louva a posição oficial de fazer dos direitos humanos “uma prioridade” para aprimorar “o quadro constitucional”. Vários países, entre os quais o Irã, Venezuela, Coreia do Norte, Arábia Saudita e Canadá deram notas positivas à Líbia no quesito proteção legal aos cidadãos – os mesmos que agora se estariam levantando contra o governo e sendo cruelmente atacados pelo mesmo governo” (em http://nation.foxnews.com/united-nations/2011/03/01/un-poised-praise-libyas-human-rights-record
<http://nation.foxnews.com/united-nations/2011/03/01/un-poised-praise-libyas-human-rights-record> ).

Sejam quais forem os crimes pessoais de Gaddafi, o povo líbio parecia viver muito bem. Uma delegação de médicos russos, ucranianos e bielorrussos escreveram carta aberta ao presidente Dmitry Medvedev e ao primeiro-ministro Vladimir Putin da Rússia, em que dizem que, depois de habituados à vida na Líbia, são de opinião que poucos países vivem em condições tão favoráveis quanto os líbios:

[Os líbios] têm tratamento médico gratuito e seus hospitais oferecem o que há de melhor, no mundo, em tratamentos e equipamentos médicos. A educação é universal e gratuita, muitos jovens recebem bolsas de estudo no exterior, pagas pelo estado. Ao casar, cada casal líbio recebe empréstimo sem juros de 60 mil dinares líbios (cerca de 50 mil dólares), como auxílio do estado para constituir família. Há empréstimos oficiais sem juros e, pelo que vimos, sem prazo. Dados os subsídios que o estado paga, o preço de carros é muito inferior ao que se vê na Europa e praticamente todas as famílias têm carro. Gasolina e pão são subsidiados e baratíssimos, e os agricultores são isentos de impostos. O povo líbio é pacífico e calmo, não é dado a beber e os líbios são muito religiosos (em http://alexandravaliente.wordpress.com/2011/03/26/nato-u-s-war-crimes-open-letter-from-citizens-of-ukraine-belarus-and-russia-working-and-living-in-libya/
<http://alexandravaliente.wordpress.com/2011/03/26/nato-u-s-war-crimes-open-letter-from-citizens-of-ukraine-belarus-and-russia-working-and-living-in-libya/> ).

Os médicos insistem que falta informação à comunidade internacional sobre a luta contra o regime. “Quem, afinal, se rebelaria contra o governo que vemos aqui?” – perguntam.

Ainda que muito disso não passe de propaganda, não há como negar pelo menos uma grande realização do governo de Gaddafi: há água farta para a população, e gratuita. O estado construiu um grande aqueduto que traz água ao deserto e implantou na Líbia o maior e mais caro projeto de irrigação que há no mundo (o Projeto “Grande rio feito pelo homem” [ing. GMMR, Great Man-Made River] custou US$33 bilhões). Na Líbia, a água é muito mais crucialmente importante para os cidadãos, que o petróleo.

O GMMR abastece 70% da população com água potável e para irrigação, bombeada do imenso Sistema Aquífero de Arenito Níbio, do sul até as áreas urbanizadas no litoral, localizadas ao norte, a 4 mil quilômetros de distância da fonte. Isso, pelo menos, não há dúvidas de que o governo de Gaddafi fez bem feito.

Outro argumento que se tem usado para explicar o ataque à Líbia é que se trataria “do petróleo”, ideia que também apresenta inúmeras contradições. Como observou o National Journal, a Líbia produz apenas 2% do petróleo mundial. Só a Arábia Saudita, só ela, tem capacidade para aumentar a oferta de petróleo e suprir qualquer demanda que se criasse pela falta do petróleo líbio, e mesmo que a Líbia fosse varrida do mapa. Além do mais, se se trata de petróleo, por que tanta pressa para criar um novo banco central?

Outros dados intrigantes voltam a circular na Internet, mostrando entrevista realizada em 2007, pela página “Democracy Now”, com o general General Wesley Clark, general da reserva. Naquela entrevista o general Clark diz que 10 dias depois do 11 de setembro de 2001, um general lhe disse que já estava tomada a decisão de invadir o Iraque. Clark conta que a notícia o supreendeu e que perguntou por quê. “Não sei”, foi a resposta, “Acho que é porque ninguém sabe o que fazer!” Mais tarde, o mesmo informante contou ao general Clark que havia planos para invadir sete países em cinco anos: Iraque, Síria, Líbano, Somália, Sudão e Irã.

O que há de comum entre esses sete países? Os que estudamos o sistema bancário e os bancos centrais em todo o mundo sabemos que nenhum desses países aparece na lista dos 56 países filiados ao Bank for International Settlements (BIS) [Banco de Compensações Internacionais; é o ‘banco central’ dos bancos centrais; organização internacional responsável pela supervisão bancária, que visa a “promover a cooperação entre os bancos centrais e outras agências na busca de estabilidade monetária e financeira” mundial, com sede na Basileia, Suíça (NTs, com informações de http://pt.wikipedia.org/wiki/Banco_de_Compensa%C3%A7%C3%B5es_Internacionais
<http://pt.wikipedia.org/wiki/Banco_de_Compensa%C3%A7%C3%B5es_Internacionais> )]. Se não fazem parte do BIS, esses países estão fora do campo regulatório dos banqueiros centrais reunidos no BIS, na Suíça.

Os renegados mais resistentes são precisamente a Líbia e o Iraque – dois países que já foram diretamente atacados. Kenneth Schortgen Jr, escrevendo em Examiner.com, observou que “seis meses antes de os EUA atacarem o Iraque, o Iraque passou a exigir euros, em vez de dólares, nas vendas de petróleo – o que converteu o Iraque em ameaça mortal, porque ameaçava o domínio do dólar como moeda internacional de reserva, na modalidade de petrodólar” (em http://wn.com/pre_market_movers_february_4th,_2011?orderby=relevance&upload_time=today)

Segundo matéria publicada em jornal russo dia 28/3/2011, “Bombing of Líbia - Punishment for Ghaddafi for His Attempt to Refuse US Dollar” (em http://kir-t34.livejournal.com/14869.html), Gaddafi fez movimento semelhante ao dos iraquianos: começou a recusar dólares e a exigir euros, e conclamou os países árabes e africanos a usar uma nova moeda, o dinar de ouro. Gaddafi planejava conseguir que toda a África, seus 200 milhões de habitantes, passassem a viver com essa nova moeda única.

Ao longo do ano passado, vários países árabes e muitos países africanos aprovaram a nova moeda. Restaram contra só a África do Sul e alguns países da cúpula da Liga Árabe. A iniciativa não foi vista com bons olhos pelos EUA e pela União Europeia; o presidente Nicolas Sarkozy declarou que a Líbia seria ameaça à segurança financeira da humanidade. Gaddafi não se impressionou e prosseguiu na sua campanha para criar uma moeda da África.

Com o que, afinal, podemos voltar ao mistério do novo banco central ‘rebelde’, na Líbia. Em artigo publicado em Market Oracle, Eric Encina escreve:
“Fato raramente mencionado pelos ‘especialistas’, ‘comentaristas’ ‘analistas’ ou políticos ocidentais é que o Banco Central da Líbia é 100% banco público. Hoje, o governo da Líbia cria a própria moeda, o dinar líbio, graças ao uso que dá ao seu banco central público nacional. Ninguém pode dizer que a Líbia não seja nação soberana, rica em recursos naturais e capaz de comandar o próprio destino econômico. O principal problema dos cartéis dos bancos globais é que, para negociar com a Líbia, têm de negociar através do Banco Central Líbio e em moeda nacional líbia. Nessas condições não têm controle sobre a negociação nem meios para manipular os preços e condições de negociação.

O objetivo de derrubar o Banco Central Líbio (CBL) não aparece nos discursos de Obama, Cameron e Sarkozy, mas não há dúvidas de que é objetivo prioritário na agenda da grande finança globalista: incluir a Líbia na lista de países financeiramente obedientes” (em http://www.marketoracle.co.uk/Article27208.html <http://www.marketoracle.co.uk/Article27208.html> ).

A Líbia não tem só petróleo e água. Segundo o Fundo Monetário Internacional, o banco central líbio mantém lastro de cerca de 144 toneladas de ouro. Com esse tipo de moeda-lastro, quem precisa de BIS, FMI e seus ‘aconselhamentos’?

Dadas essas evidências, é preciso agora considerar mais de perto as regras do Banco de Compensações Internacionais e o efeito que têm nas economias locais. Artigo que se lê na página do BIS na internet (http://www.bis.org/about/index.htm) declara que os bancos centrais reunidos na Rede de Governança dos Bancos Centrais devem manter, como seu objetivo único ou básico, “preservar a estabilidade de preços”.

Devem ser independentes dos governos nacionais, para garantir que nenhuma consideração política interfira no funcionamento. “Estabilidade de preços” significa manter suprimento estável de moeda, mesmo que isso implique castigar a população com pesadíssimas dívidas externas. Os bancos centrais ‘coligados’ são encorajados a não aumentar o suprimento de moeda mediante emissão de dinheiro e devem usar o dinheiro em benefício do Estado, diretamente ou mediante empréstimos.

Em artigo de 2002 em Asia Times Online, intitulado “The BIS vs national Banks” (14/5/2002), Henry Liu dizia:
“As regulações do BIS têm o único objetivo de fortalecer o sistema bancário internacional privado, mesmo que à custa das economias nacionais. O BIS faz para os sistemas bancários nacionais o mesmo que o FMI fez aos regimes monetários nacionais. Economias nacionais que sirvam aos interesses da finança globalizada deixam de servir a interesses nacionais.

... o FDI [ing. foreign direct investment, investimento estrangeiro direto] com valor nominal em moedas estrangeiras, quase sempre o dólar, condenaram muitas economias nacionais a um desenvolvimento sem equilíbrio, voltado para exportar, sobretudo para gerar pagamentos em dólar aos investidores estrangeiros diretos, com mínimo benefício às economias nacionais” (http://www.atimes.com/global-econ/DE14Dj01.html <http://www.atimes.com/global-econ/DE14Dj01.html> ).

E acrescentava: “Se se aplica a “Teoria do Dinheiro do Estado” de Knapp, qualquer governo pode pagar com a própria moeda todas as necessidades do seu próprio desenvolvimento, para manter o pleno emprego sem inflação”. A “Teoria do Dinheiro do Estado” refere-se a dinheiro criado por governos, não por bancos privados.

A pressuposição da lei que manda não tomar empréstimos do próprio banco central do governo é que esses empréstimos seriam inflacionários, e que tomar empréstimos do dinheiro que haja em bancos estrangeiros ou do FMI não seria inflacionário. Mas, hoje, todos os bancos criam de fato o dinheiro que emprestam, seja dinheiro público ou privado. A maior parte do dinheiro novo, hoje, vem de empréstimos bancários. Tomar empréstimos do próprio banco central governamental tem a vantagem de que o empréstimo é praticamente sem juros. Já se sabe que se se eliminam os juros, o custo dos projetos públicos caem em média 50%.

Tudo faz crer que o sistema líbio funciona desse modo. Segundo a Wikipedia, entre as funções do Banco Central da Líbia está incluída a de “emitir e regulamentar os créditos e moedas circulantes na Líbia” e “gerenciar e emitir todos os empréstimos estatais”. O banco central da Líbia, público, pode administrar e administra a moeda nacional e faz empréstimos com vistas a atender, em primeiro lugar, os interesses do estado líbio.

Só assim se entende que a Líbia tenha recursos para oferecer educação e atendimento médico universal e gratuito, e para dar a cada novo casal, como presente de núpcias, 50 mil dólares em empréstimo que o Estado faz, sem juros. Só assim se entende que o país tenha tido meios para pagar os 33 bilhões de dólares que lhe custaram o projeto do GMMR. Hoje, os líbios temem que os ataques aéreos da OTAN cheguem aos aquedutos desse projeto, o que, sim, geraria mais um desastre humanitário.

Difícil crer, nesse quadro, que os ataques à Líbia tenham a ver exclusivamente com o petróleo. Quase certamente têm a ver, também, com a independência radical do banco central líbio. Com energia, água e crédito abundante para desenvolver a infraestrutura para que energia e petróleo sejam postos a serviço do bem estar dos líbios, a Líbia pode sobreviver à distância das garras dos financiadores/credores estrangeiros. E aí, afinal, está a real ameaça que a Líbia traz: a Líbia pode provar ao mundo que é possível fazer o que a Líbia faz.

Inúmeros países não têm petróleo, mas estão em desenvolvimento novas tecnologias que podem tornam nações não produtoras de petróleo independentes, em termos energéticos, sobretudo se os custos para construir a infraestrutura são reduzidos à metade, porque os empréstimos saem do próprio banco central nacional e público, gerido em nome de interesses públicos. A independência no campo da energia, libertará os governos da rede dos banqueiros internacionais, e da necessidade de direcionar a produção doméstica para os mercados estrangeiros, para pagar o serviço das dívidas.

Caso o governo Gaddafi caia, será interessante observar se o novo banco central líbio recém criado associar-se-á ao Banco de Compensações Internacionais, se a indústria do petróleo líbio será imediatamente privatizada e vendida a investidores globais e se continuará a haver água, educação e assistência médica universais e gratuitas na Líbia.

Tradução coletivo Vila Vudu

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Observando e aprendendo

Aprenda a acordar uma jabuticabeira

Diz um velho ditado árabe que a  experiência e a observação valem mais que os melhores livros. Até que ponto isto pode ser verdadeiro é uma incógnita, mas para quem mora no campo sua validade é inquestionável.

Por exemplo: para se informar sobre os rigores do inverno, basta     observar o comportamento das formigas. Colheita incessante e trilha extensa são uma indicação clara. A intensidade do frio e a instabilidade do tempo serão equivalentes à quantidade de alimentos que elas recolhem para o armazenamento.
E como o homem agradece tão preciosa informação? Esmagando as operárias com os pés ou jogando veneno no formigueiro. Isto, não sem antes  praguejar e proferir uma série de adjetivos nada abonadores contra a existência da "praga". Mal sabe ele que as formigas raramente atacam plantas saudáveis.

Ao invés de cuidar das plantas  doentes, ele elimina  quem   o alerta.

Reação tipicamente humana.  

Outro exemplo da importância da observação diz respeito à direção dos ventos. O mensageiro é uma ave, o João de Barro, que  mistura terra, água e palha para construir sua casinha no alto das árvores. Com ele aprende-se para que lado o vento vai soprar, pois constrói a entrada do ninho sempre em sentido contrário.

Para quem cultiva o saudável hábito de se alimentar de produtos naturais e faz questão de tratar as plantas com produtos orgânicos, não pode prescindir da experiência dos homens do campo.

O que fazer, por exemplo, se uma planta, depois de anos produzindo, parasse a produção repentinamente? A primeira providência deveria ser  jamais aceitar sugestões que envolvessem a utilização de agrotóxicos ou venenos, habitualmente designados pelo estranho nome de defensivos agrícolas.

Vejamos o caso de uma  jabuticabeira, que se enquadra no exemplo citado. Durante cinco anos cessou a produção e assim permaneceria, não fosse a experiência de um velho homem da terra, cuja recomendação trouxe de volta as frutas.

Em que consistia tal recomendação?

Que se pendurasse uma lata de 20 litros cheia de água num dos galhos e se fizesse um furo na base dessa mesma lata com prego fino, permitindo a passagem de uma gota por vez. Dia e noite elas banhariam o solo. Este ritual precisaria durar pelo menos um mês.

O resultado não poderia ser melhor.

E qual foi  a razão desse sucesso?

Segundo o velho e sábio lavrador, as plantas são como as pessoas.  Além de sensíveis, gostam de carinho e atenção, precisam descansar e repousar. Mas, muitas vezes elas se esquecem de acordar, ficando adormecidas por longo tempo.

As gotas funcionaram como um despertador.

Finalmente, aos que o destino reservou a inconveniência de ter por companhia os indesejáveis pernilongos, não se preocupem. Para afastá-los basta partir um limão ao meio e colocá-lo próximo.

Para os que abriram as portas para a tecnologia, utilizando aparelhos com refil, continuem com as portas abertas, mas substituam  o refil artificial por casca de limão do mesmo tamanho.

É infalível.

Depois disso, fica a indagação: a natureza pertence ao homem, ou o homem é que pertence à natureza?

quarta-feira, 13 de abril de 2011


Os mentirosos

Dizem que, quando criança, o general Cheinerman era tão mentiroso, mas tão mentiroso que não conseguia dizer a verdade nem quando esta lhe era útil. Por isso teria mudado o nome para Ariel Sharon na vã tentativa de se regenerar. Mas a julgar pelos massacres diários de que é vítima o povo palestino, essa mudança de nada adiantou.

É verdade que Sharon não é caso único, já que, todos os ex-governantes de Israel jamais cultivaram a verdade. 

Outro fato em comum entre tais governantes é o de serem admiradores dos excomungadores de Spinoza e, registro único na História, o de serem mais velhos que o Estado criado pela ONU. Essa mesma ONU que aprovou uma resolução em 1974 declarando o sionismo como forma de racismo, idêntico ao então apartheid da África do Sul.

 Quem não faz questão da própria vida é senhor da vida alheia.

Ao contrário do que muitos possam supor, essa frase não é de nenhum mártir palestino que se imola para chamar a atenção da humanidade, mas do filósofo francês Michel de Montaigne, talvez prevendo que 400 anos depois de escrita serviria de inspiração para todas as vítimas do sionismo.

Hoje, os governantes de Israel são  praticantes contumazes do mimetismo já que ao mesmo tempo em que massacram crianças palestinas insultam a humanidade dizendo-se favoráveis à paz.

Chainerman-Sharon agoniza há cinco anos,   em estado vegetativo permanente ( coma). Seus amigos dizem que ele se recusa a morrer por temer “a ira de Deus”...

segunda-feira, 11 de abril de 2011


500 anos*



Eram felizes à sua maneira. Andavam nus e nunca tinham ouvido falar do pecado original. No paraíso onde viviam, eram centenas, milhares, milhões de Adãos e Evas. Entre eles e a natureza havia um amor recíproco. Amor feito de respeito e solidariedade. Suas crianças gozavam de todos os privilégios. Seus velhos eram os depositários da sabedoria e da tradição. Menores abandonados, nem pensar. Idosos descartáveis, uma heresia. Ninguém explorava ninguém. A palavra lucro não tinha significado. Viviam em comunidade e suas necessidades eram supridas coletivamente.Tinham vários deuses, porque não eram egoístas. Eram deuses com letra minúscula, é verdade, que habitavam as águas, as árvores, as montanhas e os campos. Mas não  eram deuses mercantilistas. Ignoravam o dando é que se recebe.  E não obrigavam ninguém a se ajoelhar. Mas  sempre que solicitados, davam ares de sua graça.  Para apagar incêndios ou para regar os campos de milho, mandioca ou batata. Não eram  vingativos. Não diziam " não matarás!" e mais adiante " vá a Canaã e passe todos pelo fio da espada!".

Mas eram deuses com letra minúscula.

Um dia, suas terras foram alcançadas por homens vestidos dos pés à cabeça. Desembarcaram de suas naus ostentando estandartes e dois pedaços de madeira em forma de cruz. Explicaram que aos estandartes davam o nome de bandeira, com bê maiúsculo, símbolo de sua nação. E a cruz, com cê maiúsculo, era o símbolo de seu deus, com dê maiúsculo.

E por tais símbolos matariam ou morreriam se preciso fosse.

Os nativos, penalizados, lamentavam a pobreza dos visitantes. Apenas um deus... Onde já se viu? Não conseguiam imaginar um deus único, vivendo eternamente só, sem uma companheira, ou alguém com quem pudesse compartilhar toda a imensidão do universo. E o que dizer, então, matar ou morrer por um pedaço de pano? Quantos já não haviam matado para conseguir todos aqueles tecidos para cobrir o corpo? Mas os receberam bem, por entender que convivendo juntos, pudessem melhorá-los.

Encheram-nos de presentes.

Os visitantes julgaram a recepção pacífica e os presentes como sinal de fraqueza. E antes de desembainhar as espadas, ajoelharam-se diante da Cruz para dar graças ao seu Deus.

Todos sabem o que aconteceu depois.

Agora que se preparam as festividade para relembrar os 500 anos do "descobrimento", pergunta-se o que os naturais da terra têm a comemorar, além do sarampo, varíola, malária,  tuberculose,  alcoolismo,  prostituição e sua quase extinção...

Mas Justiça seja feita.

Eles ganharam o  privilégio de ter apenas um deus, com dê maiúsculo, além de aprender a vestir camisetas, calções, sandálias havaianas e de serem batizados com nomes cristãos. Peri virou Galdino e Galdino virou tocha humana em Brasília.

Moral da história.  Cada um tire a sua.

* Artigo que escrevi  para a Revista Caros Amigos antes do ano 2000.

domingo, 10 de abril de 2011


Por que a paz é difícil?



Israel continua fazendo da morte um espetáculo.

Que o digam as crianças palestinas, que nem em seu dia conseguiram escapar.

Enquanto as forças armadas de Israel matam crianças palestinas, o governo daquele Estado apregoa mundo afora, e com a cumplicidade da mídia, que quer a paz.

Fala em paz mas continua ocupando terras palestinas.

Matar crianças palestinas e ocupar terras deve ser o resultado do tal de “efeito colateral”.

Em comemoração ao Dia da Criança palestina, as ONGs Save the Children e a YMCA apelaram ao governo de Israel para por para um fim à violência e a violação dos direitos da criança.

As ONGs denunciam que a cada ano cerca de 700 crianças palestinas da Cisjordânia são julgadas em tribunais militares israelitas.

A média de idade dessas  crianças gira  em torno dos 15 anos.

Há cerca de 800.000 crianças em Gaza, a maioria delas nunca puderam sair dali.

O Muro da Vergonha que divide Cisjordânia e Jerusalém, nega a milhares de crianças palestinas o direito de ir à cidade, à sua terra e ao acesso aos serviços essenciais.

Uma pergunta se faz necessária: como explicar o fato de os governantes de Israel terem assinado acordos de paz com a Alemanha, em menos de 5 anos depois da  guerra  e recusam-se a assinar qualquer acordo de paz com os palestinos em mais de 60 anos de ocupação?
  

sexta-feira, 8 de abril de 2011


O caiçara e o beduíno


O boné estava sobre a relva, a alguns metros da praia de uma vila de pescadores no litoral sul de São Paulo. Um turista que passeava por ali não se fez de rogado. Depois de examinar o local por alguns instantes, e não vendo ninguém, pegou o boné e continuou andando. Menos de 20 metros depois, um caiçara curtido pelo sol alcançou-o e pediu o boné de volta.

Ao presenciar a cena, me lembrei de um fato semelhante que aconteceu no deserto há alguns anos.  Um turista encontrou um objeto ao lado de um monte de pedras. Achou-o interessante e resolveu guardá-lo como lembrança.

Os dois turistas, apesar de separados por milhares de quilômetros devem aplicar a máxima achado não é roubado.

Um escândalo.

O guia jordaniano reuniu o grupo e explicou que todo e qualquer objeto encontrado não deve ser tocado, pois os  beduínos têm  por hábito deixar seus pertences, por mais valiosos que sejam, “guardados” ao lado de montes de pedras ou de arbustos que, aos olhos menos avisados dão a impressão de abandonados ou perdidos. Mas não estão. Deixar pertences espalhados pelo deserto é uma tradição milenar que os beduínos observam até hoje.

As semelhanças não param aí. Basta observar como os caiçaras navegam. Os remos que movem os barcos jamais agridem a água. Deslizam com suavidade em respeito a seus antepassados que um dia o mar esqueceu de devolver. A mesma suavidade e o mesmo respeito são observados pelos beduínos quando caminham sobre as areias do deserto.

Definitivamente, o caiçara é o beduíno do mar.

Com certeza um estudo mais apurado irá  revelar muitas outras semelhanças, até na opressão. Pois tanto os homens do mar quanto os homens de areia, apesar de generosos, são hoje brutalizados por governantes que não medem esforços para mante-los nas trevas. Os beduínos são vítimas de senhores feudais, os caiçaras de capatazes de plantão.

Mas como se diz no deserto, a escuridão não existe, o que existe é a falta de luz.

quarta-feira, 6 de abril de 2011


Manifesto da Organização mundial de judeus ortodoxos Naturei Karta



“Israel é um Estado Herético e vai contra a vontade divina”


“Quando os sionistas festejam o aniversário da fundação do Estado de Israel, a comunidade mundial dos judeus fiéis à Torá marca o aniversário como um dia de dor e tragédia.

Manifestamos nossa tristeza fazendo penitência com o saco e a cinza e içando as bandeiras negras de luto.

A fundação do Estado sionista está em contradição flagrante com o ensinamento da Torá, que proíbe toda proclamação de um Estado judeu. A Torá obriga-nos a permanecer em exílio até à libertação divina que anunciará a paz eterna entre todas as nações do mundo. [...]

A iniciativa sionista de proclamar o Estado de Israel constitui uma revolta contra a vontade divina, contra a Torá, uma revolta que engendrou uma vaga interminável de violência e sofrimento. No momento da fundação do Estado herético, os judeus fiéis à Torá deploram essa tentativa de extirpar os ensinamentos da Torá, transformar os judeus em uma “nação laica” e reduzir o judaísmo ao nacionalismo. Deploramos as tragédias que a revolução sionista provocou entre os judeus, notadamente o esquecimento do preceito fundamental da Torá de agir com compaixão.

Deploramos as tragédias que a revolução sionista provocou entre os palestinos, principalmente deportações, a opressão e a subjugação.
Deploramos o desperdício de milhares de vidas humanas nos conflitos fúteis e cruéis que provocaram a proclamação e a manutenção do Estado sionista.

Nesse dia trágico, jejuamos e reunimo-nos em sinagogas por todo o mundo e oramos por um desmantelamento pronto e pacífico do Estado de Israel. Merecemos que, neste ano, todas as nações, aceitando a soberania divina, possam regozijar-se numa Palestina livre e numa Jerusalém livre!

Amém!”