segunda-feira, 30 de maio de 2011


E quem, no Oriente Médio, liga para o que Obama pensa, ou diga?

Robert Fisk, The Independent, UK

Esse mês, o Oriente Médio assistiu ao desmonte do presidente dos EUA. Pior do que isso,  assistiu-se aqui ao ponto mais baixo do prestígio dos EUA na região, desde que Roosevelt encontrou-se com o rei Abdul Aziz a bordo do USS Quincy, no Grande Lago Salgado[1], em 1945. 



Enquanto Barack Obama e Benjamin Netanyahu representavam sua farsa em dueto em Washington – Obama rastejante como sempre –, os árabes meteram mãos à obra, no serviço de mudar seu mundo, em manifestações de rua, lutando e gritando e morrendo para alcançar liberdades que jamais tiveram. E Obama gaguejava sobre mudanças no Oriente Médio – e sobre o novo papel dos EUA na região. Foi patético. 



“E... que conversa é essa de ‘papel na região’?” perguntou-me um amigo egípcio, no fim de semana. “Será que ainda supõem que alguém aqui tenha algum interesse em saber o que eles pensam?” 

Verdade.

A omissão de Obama, o erro de não ter apoiado as revoluções árabes antes de estarem praticamente decididas, tirou dos EUA o pouco prestígio que ainda tinha no Oriente Médio.

Obama calou sobre a derrubada de Ben Ali; só se uniu ao coro de indignação contra Mubarak dois dias depois de Mubarak já ter fugido; condenou o regime sírio – que já matou mais gente do próprio povo que qualquer outro governo nessa “primavera” árabe, exceto o temível Gaddafi –, mas deixou bem claro que gostaria muito de ver sobreviver o regime de Assad; ergueu o punhozinho contra a crueldade gigante do minúsculo Bahrain; mas, inacreditavelmente, ainda não disse uma palavra, uma, que fosse, contra a Arábia Saudita.

Frente a Israel, Obama ajoelha-se.

Como se surpreender agora, quando os árabes dão as costas aos EUA, não por ódio ou ira, não com ameaças, mas só, exclusivamente, com desprezo profundo? 

Agora, quem toma as decisões são os árabes e seus companheiros muçulmanos do Oriente Médio. 



A Turquia está furiosa com Assad, porque prometeu duas vezes propor reformas e eleições democráticas – e em nenhum dos casos honrou a promessa. O governo turco mandou duas delegações a Damasco e, segundo os turcos, na segunda visita Assad mentiu ao ministro das Relações Exteriores (disse que insistiria para que seu irmão Maher tirasse seus policiais das ruas das cidades sírias). Não insistiu. Os torturadores prosseguiram em sua faina. 

Assistindo à chegada de centenas de refugiados sírios pela fronteira norte do Líbano, o governo turco teme agora que se repita a onda de refugiados do Curdistão Iraquiano que inundou seu território depois da Guerra do Golfo de 1991, e já tem planos secretos para impedir que os curdos sírios cheguem aos milhares às áreas curdas do sudeste da Turquia. Os generais turcos prepararam operação para enviar soldados turcos para a Síria, para criar uma “área segura” para os refugiados sírios no território do califado de Assad. Os turcos estão preparados para avançar bem além da cidade de Al Qamishli, já na Síria – e talvez cheguem à metade do Deir el-Zour (aos velhos campos de matança do deserto, no holocausto de armênios em 1915), mas sem qualquer alarde. O plano é ali criar um “paraíso seguro” para os que fogem do massacre nas cidades sírias. 



Os qataris, simultaneamente, trabalham para impedir que a Argélia forneça mais tanques e veículos blindados a Gaddafi – essa foi uma das razões da visita do emir do Qatar, o pássaro mais esperto do Golfo Árabe, ao presidente da Argélia, Abdelaziz Bouteflika, semana passada. O Qatar está comprometido com os rebeldes líbios em Benghazi; seus aviões voam para a Líbia a partir de Creta e – o que não se sabia até agora –, há oficiais do Qatar assessorando os rebeldes na cidade de Misrata na Líbia ocidental. Se a Argélia estiver de fato ajudando a blindar Gaddafi e repondo material destruído, estaria explicado o avanço ridiculamente lento da campanha da OTAN contra Gaddafi. 

Claro, tudo depende de saber se Bouteflika realmente controla o próprio exército – ou se o pouvoir argelino, que inclui muitos generais conspiradores e corruptos, está cumprindo ordens e acordos. O equipamento argelino é superior ao de Gaddafi; assim, para cada tanque destruído, é possível que Gaddafi esteja recebendo modelo novo, como item de reposição.

Abaixo da Tunísia, Argélia e Líbia partilham 750 milhas de fronteira de deserto, rota de fácil trânsito de armas. 

Mas os qataris também têm atraído a ira de Assad. A cobertura obcecada que a rede Al Jazeera tem dado ao levante sírio – imagens de mortos e feridos sempre muito mais terríveis que qualquer coisa que a soft televisão ocidental jamais se atreveria a mostrar – enfureceu a televisão estatal síria, que se pôs a atacar furiosamente o emir e o estado do Qatar. O governo sírio acaba se suspender projetos de investimentos de empresas do Qatar no valor de 4 bilhões de libras, entre os quais um projeto da estatal de água e eletricidade do Qatar. 



Entre esses eventos épicos – o próprio Iêmen talvez leve a coroa de repressão mais sangrenta de todas; e os número de mártires sírios já ultrapassou o número de mortos pela polícia assassina e esquadrões-da-morte de Mubarak há cinco meses – quem se surpreenderá ao constatar que Netanyahu e Obama já sejam vistos como absolutamente irrelevantes?



A verdade é que as políticas de Obama para o Oriente Médio – sejam quais forem – são tão obscuras e confusas, que nem recebem qualquer atenção mais aprofundada. Obama apóia, claro, a democracia – e em seguida admite que a democracia pode não servir aos interesses dos EUA.

Naquela magnífica democracia chamada Arábia Saudita, os EUA constroem negócio de venda de armas de 40 bilhões de libras, e ajudam os sauditas a desenvolver uma “nova” força de elite para proteger o petróleo e as futuras instalações nucleares do reino. Daí brota o medo de Obama de irritar a Arábia Saudita, onde dois dos três irmãos reinantes estão tão senis que já não tomam decisões lúcidas – e infelizmente um desses dois é o rei Abdullah. E daí brota também a disposição de Obama de assegurar a sobrevivência do regime de atrocidades da família Assad. 



Claro que os israelenses preferem que a ditadura síria continue “estável”: melhor um sombrio califado conhecido, que qualquer governo islâmico que venha a surgir das ruínas.

Mas e Obama? Que sentido faz Obama defender esse argumento, quando o povo sírio está morrendo nas ruas em luta para conquistar a democracia que o mesmo Obama diz que quer ver na região? 

Um dos elementos mais ocos da oca política dos EUA para o Oriente Médio é a idéia básica segundo a qual os árabes seriam naturalmente mais estúpidos que “nós”, com certeza são mais estúpidos que os israelenses, ainda mais sem noção da realidade que o “ocidente”, além de os árabes absolutamente não entenderem a própria história. Assim sendo, os árabes têm de ser guiados, instruídos, conversados por La Clinton e sua troupe – exatamente como sempre fizeram e fazem os ditadores, guiando ‘seus filhos’ pela vida.

Fato é que os árabes são hoje muito mais amplamente alfabetizados que há uma geração; milhões falam inglês perfeitamente e são perfeitamente capazes de constatar a total fragilidade e a completa irrelevância política das falas de Obama.

Quem ouvisse o primeiro discurso de Obama esse mês, 45 minutos – o primeiro discurso de uma sequência de quatro dias de conversa fiada e perfumaria enunciadas pelo homem que parecia disposto a falar ao mundo muçulmano, do Cairo, há dois anos, mas que, a partir dali, nada mais fez –, poderia até imaginar que Obama estaria no comando das revoltas árabes, nunca que se encolheu à margem delas, com medo. 

Houve um muito significativo (co)lapso lingüístico na fala de Obama ao longo desses quatro dias críticos. Dia 19/5, 5ª-feira, falou sobre a manutenção dos “assentamentos” israelenses. Dia 20/5, 6ª-feira, Netanyahu aplicou-lhe longo sermão sobre “algumas mudanças demográficas que se observam em campo”. Em seguida, ao falar ao lobby reunido do AIPAC, no domingo, 22/5, Obama já fizera sua a expressão absurda, sem sentido, de mascaramento dos fatos, de Netanyahu. No discurso ao AIPAC, Obama falou de “novas realidades demográficas que se observam em campo”.

Quem o ouvisse, jamais suspeitaria que Obama falasse de colônias ilegais, exclusivas para judeus, construídas ilegalmente em terras que Israel roubou e continua a roubar dos proprietários palestinos, no maior caso de roubo de terras da história da Palestina. 

Obama anunciou que qualquer demora na construção da paz criará riscos para a segurança de Israel. Como se nem desconfiasse que o projeto de Netanyahu é, exatamente, adiar, adiar, adiar, adiar a paz o mais possível, até que já não haja terras palestinas a serem roubadas nem, tampouco, qualquer possibilidade de algum dia haver o estado palestino “viável” que EUA e União Europeia supostamente desejam. 

Depois, foi aquela conversa sobre “as fronteiras de 1967”. Netanyahu declarou que as tais fronteiras seriam “indefensáveis” (apesar de as mesmas fronteiras terem parecido super defensáveis durante os 18 meses que antecederam a Guerra dos Seis Dias). E Obama – sem dar qualquer atenção ao fato de que Israel provavelmente é o único país do planeta que tem fronteiras terrestres a leste... mas não se sabe onde estão – disse que havia sido mal interpretado ao falar das fronteiras de 1967. 



Pouco importa o que diga o presidente dos EUA, o atual ou qualquer outro. George W Bush assinou a rendição há anos, quando entregou a Ariel Sharon uma carta na qual declarou que os EUA aceitam “todos os grandes centros populacionais em Israel” localizados além das linhas de 1967.



Mesmo para os árabes já preparados para a fala desfibrada, sem espinha dorsal, de Obama, essa parte foi excessiva, além do razoável. Tampouco entenderam a reação ao discurso de Netanyahu ao Congresso. Como é possível que deputados e senadores dos EUA levantem-se 55 vezes para aplaudir Netanyahu – 55 vezes –, mais entusiasmo do que se vê nos parlamentos-fantoche de Assad, Saleh e o resto? 

E o quê, diabos, afinal, o Grande Discursador do Ocidente quereria dizer com “todos os países têm direito a autodefesa”... mas a Palestina tem de ser “desmilitarizada”? Ora! Queria dizer que Israel está liberada para continuar a atacar palestinos (como em 2009, por exemplo, quando Obama guardou silêncio covarde, de traição) e os palestinos que aguentem o que os espera, se não se comportarem conforme as regras – porque não terão armas para defender-se. 

Para Netanyahu, os palestinos podem escolher: ou unidade com o Hamás, ou paz com Israel. Conversa muito estranha, essa!

Quando não havia unidade, Netanyahu dizia que não tinha interlocutor palestino, porque os palestinos estavam divididos. Quando os palestinos se unem, diz que são desqualificados para conversações de paz. 

Claro, quanto mais tempo você vive no Oriente Médio, mais esperto fica.

Lembro, por exemplo, em viagem a Gaza no início dos anos 1980s, quando Yasser Arafat comandava a OLP instalado em Beirute. Ansioso para destruir o prestígio de Arafat nos territórios ocupados, o governo de Israel decidiu apoiar um grupo islâmico em Gaza chamado Hamás. A verdade é simples. Eu vi com meus próprios olhos o comandante do Comando Sul do exército de Israel negociando com os barbudos do Hamás, autorizando-os a construir mais mesquitas. 

É justo lembrar que, naquele momento, americanos e britânicos estavam ocupadíssimos tentando convencer um certo Osama bin Laden a combater contra o exército soviético no Afeganistão. Mas os israelenses não largavam o pé do Hamás. Dias depois, lá estavam outra vez reunidos com a ‘facção’ na Cisjordânia. A história foi matéria de primeira página do Jerusalem Post, no dia seguinte. E os EUA não reclamaram: nem um pio. 



Lembro de outro momento, nesses longos anos. No início dos anos 1990s, membros do Hamás e da Jihad Islâmica foram infiltrados pela fronteira israelense no sul do Líbano, onde permaneceram mais de um ano acampados numa encosta gelada. Visitei-os naquele acampamento algumas vezes. Numa dessas vezes, mencionei que, no dia seguinte, viajaria para Israel. Imediatamente, um dos homens do Hamás correu até a barraca e voltou de lá com um caderno de anotações. Dali extraiu, para me dar, os números dos telefones de casa de três importantes políticos israelenses – dois dos quais continuam importantes até hoje – e eu, chegando a Jerusalém, testei os números: os três, certíssimos. Em outras palavras: no início dos anos 1990s, o governo de Israel mantinha contato pessoal e direto com o Hamás. 

De lá até hoje, a narrativa foi deformada até se tornar irreconhecível. O Hamás passou a ser “super terrorista”, “representante da al-Qa'ida no governo unificado da Palestina”, os gênios do mal, para garantir que jamais haja paz entre os palestinos e Israel. Se tal coisa fosse verdade, a verdadeira al-Qa'ida já teria anunciado e assumiria plena responsabilidade pela ‘aliança’, que trataria de divulgar aos quatro ventos. Mas é mentira.



No mesmo contexto, Obama declarou que os palestinos teriam de responder perguntas sobre o Hamás. Mas... por quê? O que Obama e Netanyahu pensem sobre o Hamás absolutamente não interessa aos palestinos.

Obama disse aos palestinos de que não se apresentem à ONU em setembro, para exigir o reconhecimento oficial ao seu estado. Mas... por que, diabos, não poderiam ir à ONU? 

Se os povos do Egito, da Tunísia, do Iêmen, da Líbia, da Síria – e continuamos a esperar por outros que hão de vir, talvez, agora, a revolução da Jordânia, uma segunda revolução no Bahrain? O Marrocos?) – podem lutar por dignidade e liberdade, por que os palestinos não poderiam? 



Tendo ouvido décadas de lições a favor de protestos não violentos, os palestinas escolheram a via de ir à ONU e lá fazer ouvir seu clamor por legitimação. Não. Obama acha que não. E ordena que nem tentem. 

Quem leu todos os “Palestine Papers” divulgados por Al-Jazeera sabe, sem sombra de dúvidas, que os negociadores palestinos irão até onde for preciso para criar qualquer tipo de estado. Mas Mahmoud Abbas – que conseguiu escrever livro de 600 páginas sem usar a palavra “ocupação” – é perfeitamente capaz de engavetar o projeto ONU, de medo do que disse Obama – que o movimento seria visto como tentativa para “isolar” Israel e, claro, para “deslegitimar” o estado israelense – “o estado judeu”, como diz, agora, o presidente dos EUA.



Netanyahu é quem mais trabalha para deslegitimar Israel.

De todos, é o que cada dia mais se parece com os bufões árabes que, até hoje, comandaram o Oriente Médio. Mubarak viu “mão estrangeira” na revolução egípcia (mão iraniana, claro). O príncipe coroado do Bahrain, idem (o Irã, sempre o Irã). E Gaddafi (viu mãos da al-Qa'ida, do imperialismo ocidental, várias mãos estrangeiras). Idem Saleh do Iêmen (al-Qa'ida, Mossad e EUA). Idem Assad da Síria (mãos do islamismo, talvez do Mossad, e outras). E idem, idem, Netanyahu – que vê, claro, a mão do Irã, além da mão da Síria, do Líbano, de todas as entidades e seres imagináveis... exceto as suas próprias mãos israelenses. 

Contudo, enquanto segue a bufonaria geral, as placas tectônicas vibram e estremecem. 



Duvido muito que os palestinos mantenham-se calados por muito tempo mais. Se há uma “intifada” na Síria, por que não uma Terceira Intifada na Palestina? Não ações de homens-bomba e mulheres-bomba, mas movimento de massas, protestos de milhares, de milhões. Se Israel atirou para matar contra alguns poucos manifestantes que tentaram – e vários conseguiram – furar a fronteira de Israel há duas semanas... o que mais farão se tiverem de enfrentar manifestações de milhares, de milhões?


Obama resolveu que a ONU não deve reconhecer nenhum estado palestino. Por que não? Mas, sobretudo, quem, no Oriente Médio, liga para o que Obama pensa, ou diga?

 De fato, nem os israelenses ligam. 

Em breve, a primavera árabe será tórrido verão e virá também um outono árabe. Até lá, é possível que o Oriente Médio já se tenha transformado para sempre. O que os EUA digam não fará diferença alguma.
 



[1] Orig. “Great Bitter Lake”: o lago salgado entre a parte norte e sul do Canal de Suez, antes de haver o Canal de Suez. Ao lado, está o Pequeno Mar Salgado (imagens emhttp://commons.wikimedia.org/wiki/Category:Great_Bitter_Lake).  
       O novo Torquemada



No Brasil,  mandou invadir a líbia.

Na França, assinou a renovação do Patriot Act (ato patriótico).

Para quem esqueceu, Patriot Act é aquela imundície que permite prender e arrebentar qualquer cidadão.

Seja ele culpado ou inocente.

Permite torturar, invadir privacidades e nações soberanas.

Considera todos culpados até que o governo declare suas inocências.

Obama está repetindo Torquemada, o grande inquisidor da Idade das Trevas.

Sempre com o apoio da mídia.

Enquanto isso, e para gáudio dos Torquemadas de plantão, algumas imagens (fortes) de vítimas palestinas dos euro-sionistas

sábado, 28 de maio de 2011


Dormir, dormir e sonhar...

Meu nome é Hussein, tenho sete anos de idade e adoro dormir.

Sou palestino de Gaza, gosto  de dormir, gosto mesmo.

Sou cego.

Não nasci cego, fiquei cego  aos quatro anos de idade, olhando  para o céu.

As explosões eram maravilhosas, coloridas, muito coloridas, mas...

Eram bombas de fósforo, quatro anos a minha idade.

Os que não conhecem a minha história me chamam de dorminhoco.

Gosto de dormir. Gosto mesmo.

Dormir para mim significa enxergar...

Você sabem que até os cegos sonham.

Vocês sabem que os sonhos não têm limites.

Querem conhecer um de meus sonhos?

Assistam ao vídeo abaixo.

sexta-feira, 27 de maio de 2011


A esquerda no poder é a direita com discurso


Creio que a minha incompatibilidade com o sistema vem desde o nascimento. Para não me alongar posso resumir que nasci no Líbano filho de mãe baiana e pai libanês membro da resistência contra o colonialismo franco-nazista. No vai-e-vem da batalha, sobrevivi graças ao leite de uma jumenta, cujo antepassado mais ilustre transportou a Família Sagrada em sua fuga para o Egito.

E antes que me acusem de divagação explico que esse preâmbulo tem a finalidade de demonstrar que, independente do país, os inimigos da humanidade são sempre os mesmos.

Meu pai e seus companheiros não lutavam apenas pela independência do Líbano.

Buscavam um mundo mais generoso, solidário e contrário à exploração do homem pelo homem. Vários de seus companheiros sobreviveram aos franco-nazistas para sucumbir sob as botas dos novos senhores do país que falavam de uma pátria livre e próspera, mas que acabaram transformando-a num feudo discricionário graças a acordos escusos e traições sem fim.

Devia ter uns quatro anos de idade quando, em nossa aldeia, vi meu pai fugindo a pé, perseguido por quatro gendarmes a cavalo que atiraram nele sem acertar.

Meu pai e muitos de seus companheiros não quiseram trocar seus princípios pelo conforto do poder. Preferiram passar para a História com todos os riscos que isso significava.

Sobreviveu porque encontrou abrigo  no Brasil.

Mas jamais esqueceu seus companheiros de luta. Foi internacionalista até o fim de seus dias. Através dele e ainda criança, conheci Prestes e as obras de Jorge Amado e Machado de Assis. Seu livro de cabeceira era o Rubayat, de Omar Khayam. Em árabe.

Com ele aprendi que as fronteiras físicas e sociais que dividem a humanidade são antinaturais e por isso precisam ser combatidas.

Repetia sempre que fazemos parte de apenas uma raça, a raça humana.

Por acreditar e continuar acreditando nisso, minha primeira prisão aconteceu aos 16 anos de idade, em São Paulo, quando militava no movimento estudantil. Outras se seguiram. No DOPS (depois DEOPS) por diversas vezes; no Presídio Tiradentes e, finalmente, na Operação Bandeirantes (depois DOI-CODI). Enfim, nesses 40 anos, nós, brasileiros, também lutamos e sofremos.

Vários companheiros ficaram no caminho para entrar para História, outros preferiram trocar a História por migalhas de poder.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Está no DNA

Nem bibi Netanyahu e nem Liberman.

Os judeus semitas gostam mesmo é de Sharon Cohen.

Uma dançarina israelense famosa pelos espetáculos de dança do ventre. 

Sharon  fascina os israelenses semitas, cujo DNA é idêntico ao dos palestinos. 


(Leia AQUI um pequeno perfil dessa bailarina).


Quem gosta de Netanyahu e Liberman são os euro-sionistas, que até agora não conseguiram assimilar sua condição de médio orientais.

Odeiam a tudo e a todos.

 E quando não têm mais a quem odiar, odeiam a si mesmos.

Abaixo você assiste a um espetáculo de dança do ventre com música do repertório de Oum Kalthoum.

quarta-feira, 25 de maio de 2011


O ocaso do sistema

As raízes da árvore frondosa do capitalismo estão podres.


Seus galhos começam a despencar.


Uma brisa, apenas uma brisa, para sepultar definitivamente o sistema.


E já vai tarde!


O sistema já deu o que tinha que dar.


Chegou a hora do adeus.


Foi assim com a escravidão real e agora com a escravidão light.


Ou alguém acredita que a exploração do homem pelo homem não é uma forma de escravidão?


Tudo a seu tempo.


Sistemas surgem e desaparecem.


É a roda da história.


A humanidade evolui!


Mesmo contra a vontade dos detentores dos meios de produção.


E dos parasitas que vivem da manipulação da moeda.


Um espectro assombra o século 21.


A aurora da liberdade.


Haverá guerras, não tenham dúvidas.


Hoje são mais de uma centena de conflitos que regam de sangue o planeta.


Não haverá para onde fugir neste mundo globalizado.


O sistema está moribundo, façam o que fizerem, não o salvarão.


Não podemos continuar vivendo na pré-história.


Agora sim, vai começar a História da humanidade.


E caberá a cada um abrir o próprio caminho.


Mas não se enganem.

O um sem o dois é zero.


E o Um com o Dois é infinito.


terça-feira, 24 de maio de 2011


EUA: a força contrademocrática mais poderosa no mundo árabe

Joseph Massad, Al-Jazeera, Qatar*


Em 1960, o primeiro-ministro britânico Harold Macmillan fez importante discurso, intitulado “Wind of Change” [Vento de Mudança], primeiro em Accra e depois em Cape Town, sinalizando a descolonização britânica dos territórios africanos e alertando o regime da África do Sul, para que pusesse fim às políticas do apartheid.

Em 2011, o presidente dos EUA Barack Obama fez diferente. 

Embora tenha batizado o discurso de “Ventos de Mudança”, em referência aos levantes que varrem o mundo árabe, disse, bem claramente, que os tais ventos ainda não sopram em Washington DC e talvez jamais soprem.

O segundo discurso do presidente Obama sobre o mundo árabe, feito dia 19 de maio, mostrou a mesma regularidade e a mesma total ausência de qualquer mudança na política dos EUA, que o primeiro, no Cairo, dia 4/6/2009. Não que tenham faltado imponência e hubris imperiais nos dois discursos, mas nem um nem outro trouxe seja substância seja novidade, para nem dizer que a verbosidade gratuita, floreada, demonstra que o controle do clima imperial em Washington não pode ser jamais “mudado”, nem, sequer, pelo vendaval dos levantes árabes.



O problema das políticas dos EUA para o mundo árabe não está só na insistência com que se ouvem sempre as mesmas idéias, na repetição crédula da propaganda norte-americana – que os norte-americanos tão facilmente aceitam, como alguns outros, em todo o mundo. O problema de fato está em que aquelas políticas insistentemente manifestam completa ignorância e nenhuma intimidade com a cultura política dos árabes e insistem em insultar a inteligência dos cidadãos destinatários pressupostos de discursos como os do presidente Obama.



Descaminhos dos EUA 



Nos últimos 30 anos, líderes árabes aliados dos EUA (e alguns não aliados) insistem em dizer aos seus cidadãos que o Irã, os islâmicos xiitas e sunitas, o povo palestino e sua ambição sem limites seriam, dentre outros, os motivos das dificuldades em que vivem os árabes. Essa ‘seleção’ de inimigos apareceu pela primeira vez no plano de EUA-sauditas-Kwait, para construir uma guerra de vida ou morte contra o Irã revolucionário, apresentado como inimigo dos árabes; esse plano foi lançado por Saddam Hussein em 1981, para defender os poços de petróleo dos EUA. A guerra Irã-Iraque que daí resultou, causou, até 1988, a morte de um milhão de iranianos e de 400 mil iraquianos.

Simultaneamente, e desde o final dos anos 1960s, Jordânia, Síria e Líbano viveram em guerra contra guerrilheiros e civis palestinos, que identificavam como principais inimigos.

O Egito declarou guerra à Líbia quando Sadat estava no poder e, depois, já sob Mubarak, contra seus próprios islâmicos e contra os palestinos. E no último ano do reinado de Mubarak, até a Argélia foi definida e combatida como inimiga dos egípcios.



A Arábia Saudita, ao mesmo tempo em que reprime a própria população em nome do wahabismo, jamais deixou de arquitetar planos (e complôs), desde 1982, para atrair Israel para o ninho árabe. 

Quando o presidente Obama repete a mentira que interessa aos israelenses, que seus assessores pró-Israel na Casa Branca – e nenhum outro tipo de assessor para assuntos do mundo árabe jamais pisou a Casa Branca desde o governo Clinton – lhe impingem, a saber, que “muitos líderes na região tentaram dirigir seus protestos noutra direção. O ocidente foi acusado de ser fonte de todos os problemas, meio século depois do fim do colonialismo.

 O antagonismo contra Israel converteu-se em única via aceitável para a expressão política”... a que líderes, afinal, Obama refere-se? A Sadat, Mubarak, Ben Ali, reis Hussein e Abdullah II da Jordânia, reis Hasan II e Muhammad VI do Marrocos, presidente Bouteflika, todos os monarcas do Golfo, os dois primeiros-ministros Hariri do Líbano, Rafiq e Saad? Quem?

Essas mentiras são absolutamente inacreditáveis para o resto do mundo. Até para que conseguisse crer nas próprias mentiras, para a partir delas tentar explicar os fracassos de suas políticas externas num mundo que os EUA insistem em dominar, seria preciso que o governo dos EUA se dedicasse a aprender o muito que não sabe sobre o mundo árabe.


Oposição popular e suporte à liderança 


A oposição aos EUA e a Israel é, de fato, atitude das multidões no mundo árabe, não dos líderes. Os líderes árabes, por décadas, só fizeram repetir que EUA e Israel são amigos dos árabes. É o povo árabe, só o povo, não os dirigentes, que insiste que as políticas dos EUA e a dominação e constantes agressões israelenses na região são a causa de esses dois países serem vistos hoje como inimigos dos árabes. Os líderes árabes, esses, e suas respectivas máquinas de propaganda, sempre fizeram o possível para encaminhar a fúria da rua árabe para outras direções, para inimigos imaginários, enquanto só cuidam de entender-se com Israel.

A tentativa de Obama de negar o ódio que EUA e Israel inspiram à rua árabe pelo que fazem na região, é equivalente à atitude sempre repetida, de EUA e Israel (nunca dos árabes) de fugir e negar a responsabilidade pelo que fazem. EUA e Israel jamais assumiram a responsabilidade pela violência horrível que sempre infligiram aos árabes. Em vez disso, sempre se dedicaram a transferir a responsabilidade por seus atos, para as vítimas. Quando Obama e Israel conclamam os árabes a assumir responsabilidades sobre a região, e não vêem as culpas de EUA e Israel, o que fazem, mais uma vez é recusar-se a reconhecer os fatos.



Os árabes sempre assumiram claramente a responsabilidade e têm-se dedicado a tentar derrubar os ditadores que EUA e Israel apoiam há décadas – e continuam a apoiar.

Quem sempre se recusa a assumir a responsabilidade são os EUA e Israel. O discurso de Obama, infelizmente, continua essa tradição de cegueira. 

Na mesma linha, Obama castiga a Síria por seguir “seu aliado iraniano, buscando assistência em Teerã, nas táticas de supressão. E isso diz muito sobre a hipocrisia do regime iraniano”. Melhor faria se acusasse França, Grã-Bretanha e os próprios EUA, onde os governos de Ben Ali e Mubarak buscaram assistência e conselhos até o último momento. O escândalo da colaboração entre a França e os governos de Ben Ali e Mubarak até o último dia, sobretudo em temas “de segurança”, encheu os jornais em todo o mundo nos últimos meses; como as notícias de que tanto o ministro da Defesa egípcio Muhammad Tantawi (agora encarregado do conselho militar de governo no Egito pós-Mubarak) como o chefe do estado-maior do exército Sami Anan passaram boa parte do levante egípcio em Washington DC, em consultas com os norte-americanos, sobre como melhor “lidar” com o levante. E, isso, além da outra linha direta até Mubarak e Omar Suleiman, que muitos órgãos do governo e da segurança dos EUA mantiveram ativa até o último dia do governo de Mubarak – e que continua ativa.



Obama pressupõe que os árabes sejam estúpidos. Ou que os árabes não saibam que são os EUA e alguns países europeus que treinam e garantem os fundos que mantêm quase todas as agências de segurança no mundo árabe. A ajuda do Irã à Síria talvez exponha a hipocrisia iraniana. Mas a hipocrisia de EUA, Grã-Bretanha e França, essa, como se vê, permanece bem escondida. 



Liberdade – para uns sim, para outros nunca 


Obama afirmou que “não deve haver qualquer dúvida de que os EUA consideram bem-vinda a mudança que faz avançar a autodeterminação e a oportunidade”, mas, se se considera a insistência com que essa mudança é empurrada goela abaixo da Síria e da Líbia, mas nunca toma o rumo de Omã, Jordânia, Marrocos, Arábia Saudita, Bahrain (dentre outros), logo surgem dúvidas. O silêncio sobre as manifestações populares contra a ditadura nas monarquias (Arábia Saudita, Omã, Jordânia, Marrocos) e a crítica sempre superficial e rápida contra o Iêmen, cujos levantes populares aconteceram antes que na Líbia, fazem espantoso contraste com a veemência com que Obama critica a Síria e a Líbia.

A nenhuma referência ao Bahrain é claro sinal de covardia, agora que o levante no Bahrain foi esmagado, por ação de forças mercenárias do Golfo que recebem armas e fundos dos EUA, coordenadas pela Arábia Saudita.

Obama não teve coragem de falar sobre os muitos prisioneiros, nem sobre a destruição de mesquitas xiitas.

No caso da Síria, contudo, as críticas lá estavam, desde o primeiro dia. De fato, se se justapõem aquelas críticas e a declaração de que “manteremos nossos compromissos assumidos com amigos e parceiros”, vê-se mais claramente que tipo de mudança os EUA apreciam e que tipo absolutamente não admitem. Obama chegou, até, a enumerar as cidades onde se aplicam os princípios “fundantes” dos EUA: Bagdá, Damasco, Sana e Teerã, além de Benghazi, Cairo e Túnis; mas não se aplicam em Riad, Manama, Muscat, Amã, Argel ou Rabat.

Também o sempre referido princípio “fundante” dos EUA, de igualdade e tolerância religiosa é sempre muito fortemente específico para uns; para outros, nunca. Além do Iraque – país que os EUA destruíram e onde implantaram a mais viciosa forma de sectarismo religioso e de ódio étnico que há hoje em todo o Oriente Médio – e que Obama descreveu como “democracia multiétnica e multirreligiosa, de todas as seitas”, a preocupação com a tolerância religiosa de Obama só se aplica ao Egito e – com críticas mínimas–, ao Bahrain. 

Mas quando o assunto é Israel, todos os compromissos são esquecidos.

Obama declara que os árabes “devem reconhecer Israel como estado judeu”, e mais uma vez ameaça os palestinos (como já havia ameaçado também no discurso do Cairo). Os palestinos que desistam de “deslegitimizar” o direito de Israel ser estado que mantém leis de discriminação contra cidadãos não-judeus, discriminação por religião e por etnia.

“Para os palestinos, terminarão em fracassos os esforços para deslegitimar Israel”, disse Obama (em
A tolerância religiosa, poder-se-ia pensar, seria princípio “fundante” geral, de aplicação uniforme, não seletiva. Mas é tal a miopia de Obama, que ainda supõe que os árabes engolirão facilmente essa sua descarada retórica antiárabe e pró-Israel. 

O mesmo se aplica a outro dos interesses “essenciais” dos EUA, a saber, o combate à proliferação nuclear. Obama teve a desfaçatez de dizer que os EUA “há anos implementam” uma política “contra a disseminação de armas nucleares” na região. Mas... todo o mundo sempre soube, há pelo menos 40 anos, que Israel é o único estado, em toda a região, que tem armas nucleares em seu arsenal – e que pelo menos numa ocasião ameaçou usá-las. E que, até hoje, se recusa a assinar o Tratado de Não-proliferação de armas nucleares. Que os EUA apoiaram Israel quando se tratou de construir e abastecer seu arsenal nuclear e, hoje, os EUA vetam qualquer decisão da ONU que cogite de penalizar Israel por não respeitar normas internacionais. 

Nada disso parece criar qualquer problema para os “interesses essenciais” dos EUA. Iraque, Síria e Irã não podem ter reatores nucleares nem para finalidades médicas. Mas Israel pode e deve ter tantas bombas atômicas quantas deseje. 

 

Simpatia pelos colonizadores



Afinal, Obama chega à questão palestina, mas outra vez nada acrescenta – por mais que os sionistas hoje finjam grave indignação e ultraje. Para começar, os árabes são convocados  – como já fomos convocados no discurso do Cairo – a compreender e amar os infelizes judeus israelenses que conhecem “a dor de saber que tantas crianças na região são ensinadas a odiá-los”. Que Israel e grandes associações de judeus norte-americanos sejam, há décadas, divulgadoras das formas mais virulentas de preconceitos contra os árabes; que sejam odiadores de muçulmanos; que gerem e financiem a mais longa e mais pervertida campanha de propaganda de ódio racial que o mundo jamais viu...
Não, não. Obama, seus assessores e conselheiros jamais ouviram falar dessas monstruosidades.


Que tipo de credibilidade Obama supõe que tenha entre os árabes que, há décadas, são alvo de discursos e de preconceitos desse tipo, para recomendar que os árabes se compadeçam com o sofrimento de seus carrascos que, desde 1948, sem parar um dia, matam crianças árabes?


Quando declara que “o sonho de um estado judeu e democrático não pode ser realizado por ocupação permanente” – Obama diz, simultaneamente, que o tal sonho se poderá realizar, sim, sem tolerância. Em outras palavras: os cidadãos palestinos de Israel continuarão a ser discriminados por religião e por etnia... no tal “estado judeu e democrático”. Mas nem esse duvidoso e precário ‘direito’ é assegurado igualmente aos palestinos dos Territórios Ocupados. E fica-se sem saber que tipo de morte lenta Obama recomenda aos palestinos que vivem Jerusalém.



O direito de existir



Obama propõe que se adiem as negociações sobre Jerusalém ocupada pelos israelenses. Mas, ao mesmo tempo, propõe que Israel aceite as fronteiras de 1967. Aqui, ou não sabe do que está falando, e o problema é só ignorância; ou há aí ocultada uma grave má intenção. 

As fronteiras de 1967 de que Obama fala incluem Jerusalém Leste. Obama parece ter ‘preventivamente’ extraído a cidade do mapa; como se não fosse parte do território. E, isso, apesar de a lei internacional e a ONU reconhecerem Jerusalém como parte integrante dos territórios que Israel ocupou, por ação militar, em 1967.

Além disso, Israel expandiu ilegalmente a área de Jerusalém Leste, mediante roubo de terras na Cisjordânia.
Há quem estime que, hoje, a área sob controle de Israel já equivalha a 10% da Cisjordânia (em 1967, eram só 6 quilômetros quadrados). 



As chamadas “trocas mutuamente aceitas” de terras que Obama propõe, tampouco são viáveis. Israel já tomou outros 10% do território da Cisjordânia, terras hoje ocupadas pelo muro do apartheid. Acrescentem-se as colônias construídas e o vale do Jordão e praticamente já não há terras palestinas a serem trocadas pelas terras que Israel ocupou.

O que resta aos palestinos, de fato, é menos de 60% da Cisjordânia – terreno que algum dia talvez se possa batizar de “um estado palestino” e “não-militarizado”, mas que só por milagre algum dia seria “soberano” – conforme a fórmula de Obama. 



Obama continua preocupadíssimo com o direito de Israel existir, mas não perde o sono por causa do direito de os palestinos existirem.

Disse, sem ironia, falando do Hamás: “Como você pode negociar com um partido que se mostrou pouco disposto a reconhecer seu direito de existir?” Ora essa! Os palestinos negociamos há duas décadas com Israel, que nunca reconheceu o direito de os palestinos existirmos! 



O discurso de Harold Macmillan em 1960 alertava os sul-africanos para que desistissem das políticas de apartheid. O discurso de Obama em 2011 repete insistentemente que os palestinos devem reconhecer o direito de Israel de continuar a ser estado racista.

Quando Obama diz que “os interesses de curto prazo dos EUA” às vezes “não se alinham perfeitamente com nossa visão de longo prazo para a região”, aí, prega a maior de todas as mentiras imperiais. Os interesses de curto prazo e também os interesses de longo prazo dos EUA na região sempre se alinharam perfeitamente: controlar os recursos de petróleo, assegurando ganhos para empresas norte-americanas; e defender Israel. 

Até que verdadeiros “ventos de mudança” varram para longe esses interesses, os EUA continuarão a ser, como sempre foram, a força contrademocrática mais poderosa no mundo árabe. E discurse o imperador Obama o quanto queira.

*Joseph Andoni Massad (1963) é palestino nascido na Jordânia. PhD em Ciência Política (1998) e
Professor Associado de Política Árabe Moderna e História do Pensamento no 
Departamento de Oriente Médio, Sudeste Asiático e África, na Columbia University.

Tradução Coletivo Vila Vudu
Marcelo, do Real Madrid, apóia palestinos e é cortado da Seleção: Coincidência?
     Imagem do perfil deletado de Marcelo no facebook
Marcelo, jogador do Real Madrid e considerado por muitos torcedores e comentaristas como o melhor lateral-esquerdo brasileiro em atividade no mundo, está fora da seleção. Marcelo se envolveu em polêmica por ter declarado apoio à causa palestina. Seria isso uma simples coincidência?


Artigo de Raphael Tsavkko no Diário Liberdade
Marcelo Vieira é lateral-esquerdo do Real Madrid (time conhecido por sua torcida fascista e por ter sido time do coração de Francisco Franco) e, até ontem, era dado como certo para disputar a Copa América e para os amistosos contra a Romênia e Holanda, no começo do próximo mês.

O corte na seleção seria algo normal se o jogador não tivesse se envolvido em uma polêmica recentemente por apoiar a causa palestina.

No dia 15 de maio, dia da Nakba, ou Grande Catástrofe, a criação oficial do Estado Nazi-Sionista de Israel, Marcelo postou em seu Facebook uma foto de um militante palestino com a frase "My heart with Palestinian now as they fighting with Israel” ["Meu coração está com os palestinos em sua luta contra Israel", em tradução literal]. Foi o suficiente para que o Facebook apagasse o perfil de Marcelo Vieira depois de pressão de sionistas.

Interessante é a ausência total de repercussão do caso no Brasil, assim como em blogs pelo mundo. O jornal israelense YNET divulgou o caso e alguns poucos blogs repercutiram:

"Os comentários na pagina do facebook nao demoraram a chegar. O status de Marcelo recebeu 544 'Curtir' – 'Like' –, e 351 comentários (em pouquíssimo tempo), parte dos internautas de países árabes agradeceu a Marcelo pelo apoio. Um homem chamado Tahrir Rajab escreveu: 'Todos os palestinos te amam, Marcelo'.

Outros comentários foram do estilo: 'Marcelo, você é demais'. Outros usuários aproveitaram a oportunidade para se lançarem contra Israel: 'Morte aos Sionistas', 'Morte a Israel'.

Chegaram a apelidar e 'honrar' o jogador com o apelido 'Haj* Marcelo'.

No fórum do Hamas, também se orgulharam da notícia sobre o comentário, e um dos internautas afirmou que o ato do jogador do Real Madrid comprova que a questão palestina é uma questão humanitária, que afeta todos os homens livres por todo o mundo. Outro usuário até ligou o apoio de Marcelo aos palestinos com o gol que marcou contra o time Villarreal, no 37º campeonato da liga espanhola", diz o site YNET.

O primeiro absurdo do caso é o fato do Facebook deletar a conta de um usuário por este manifestar solidariedade ao povo palestino. Que direito tem o Facebook de deletar a conta de alguém, sem aviso, por defender uma causa política legítima? Não é a primeira vez que o Facebook deleta contas de militantes políticos ligados à causa palestina ou mesmo à causa basca, movimentos sociais, de esquerda, etc.

O segundo absurdo vem da CBF e do corte do jogador logo depois de suas declarações. Será mera coincidência?

No Brasil, o caso não mereceu uma linha de destaque. Veja a opinião de colunista do GloboEsporte (http://globoesporte.globo.com/platb/olhotatico/2011/05/21/ausencia-de-marcelo-na-selecao-e-injustificavel/) que critica Mano Menezes mas nada informa sobre a eventual censura da CBF.

"É legítimo que o técnico selecione atletas de sua confiança, ainda mais para uma competição que ganha importância pela ausência do Brasil nas Eliminatórias e que terá o grupo reunido por um período mais longo. No entanto, Marcelo não tem histórico recente de indisciplinas graves nem atitudes irresponsáveis. E considerando apenas os aspectos técnicos e táticos, que devem prevalecer na análise de qualquer jogador, deixar o lateral-esquerdo do Real Madrid de fora é injustificável. A primeira grande bola fora de Mano Menezes na seleção".

*Haj - santificado. Haj é um título dado no Islã a todo homem que já visitou Meca. O título garante status de sacerdote e todos que o receberam podem ser reconhecidos através de sua vestimenta (bata) e de sua cabeça sempre coberta.

Com informações adicionais do YNET reproduzidas pelo Vermelho

segunda-feira, 23 de maio de 2011

É pouco provável que Obama enfrente as questões reais do Oriente Médio

Robert Fisk, The Independent, UK

OK, então lá vai o que o presidente Barack Obama deveria dizer em discurso sobre o Oriente Médio: Vamos sair amanhã do Afeganistão. Vamos sair amanhã do Iraque. Vamos parar de dar apoio covarde incondicional a Israel. Os EUA forçarão os israelenses – e a União Européia – a pôr fim ao sítio de Gaza. Suspenderemos todos os fundos que Israel espera receber de nós, até que acabe, completamente, sem condições, a construção de colônias em terras roubadas aos árabes que nunca pertenceram a Israel. Poremos fim a todos os negócios e cooperação com os ditadores viciosos do mundo árabe – seja saudita, sírio ou líbio – e apoiaremos a democracia também nos países nos quais os EUA têm interesses comerciais massivos. Ah! E, sim, conversaremos com o Hamás, claro.

Evidentemente o presidente Obama não dirá nada disso. Arrogante e covardemente, só falará sobre os “amigos” que o ocidente teria no Oriente Médio, sobre a segurança de Israel – e “segurança” é palavra que Obama jamais usou ao falar da Palestina – e enrolará e enrolará sobre a Primavera Árabe, como se, algum dia, tivesse dado algum apoio a alguma democracia no Oriente Médio (antes, claro, de os ditadores já estarem em fuga); como se – quando mais precisaram do apoio de Obama – Obama tivesse oferecido a ajuda moral de sua autoridade ao povo do Egito. E que ninguém duvide: Obama falará também muito sobre um grande Islã religioso (mas nunca muito grande, ou os Republicanos recomeçam a exigir a certidão de nascimento de Barack Hussein Obama). Temo que ouçamos também – ah, sim, temo! – um convite-comando para que viremos a página de Bin Laden, para “dar o assunto por encerrado” e “seguir avante” (convite-comando que, também temo, o Talibã não aceitará).

Mr. Obama e sua igualmente desfibrada secretária de Estado não têm ideia do que enfrentam no Oriente Médio. Os árabes perderam o medo. Estão fartos de nossos “amigos” e enojados de nossos inimigos. Breve, os palestinos de Gaza marcharão sobre as fronteiras de Israel e exigirão o direito de “voltar para casa”.

No domingo, já se viram sinais disso nas fronteiras da Síria e do Líbano. O que farão os israelenses? Matarão palestinos aos milhares? E o que dirá então Mr. Obama? (Claro, exigirá “contenção dos dois lados”, frase que aprendeu do seu torturante predecessor).

Penso que os norte-americanos sofrem do mesmo mal que os israelenses: acreditam cegamente nos seus próprios argumentos de auto-engano. Os norte-americanos continuam a falar da bondade do Islã; os israelenses, de como entendem “a mente árabe”. Mas não entendem coisa alguma. 

O Islã, como religião, nada tem a ver com isso, como tampouco o Cristianismo (palavra que não tenho ouvido nos últimos tempos) tem algo a ver com isso, ou o Judaísmo. Trata-se agora de dignidade, honra, coragem, direitos humanos – qualidades que, noutras circunstâncias, os EUA sempre elogiam –, que os árabes entendem agora que também lhes cabem. E estão certos. 

É hora de os norte-americanos livrarem-se do medo que lhes inspiram os lobistas  pró-Israel – de fato, são lobistas pró-Likud – e a repugnante acusação de anti-semitismo que repetem contra qualquer um que se atreva a criticar Israel. É hora de os norte-americanos aprenderem a ter coragem, como a valente comunidade de judeus norte-americanos que protestam contra as injustiças cometidas por Israel e líderes árabes.

Mas nosso presidente favorito jamais dirá em seu discurso qualquer dessas verdades. Podem esquecer. Não passa de presidente bico-doce, que diz qualquer coisa, e que deveria ter devolvido – esquecemos? – seu Prêmio Nobel, porque nem Guantánamo conseguiu fechar; imaginem se conseguirá construir alguma paz! 

E o que disse ele no discurso do Nobel? Que ele, Barack Obama, tinha de viver no mundo real; que não é Gandhi... Como se – e honra ao The Irish Times, por ter sabido ler – Gandhi não tivesse combatido contra o império britânico! Assim sendo, seremos como sempre ensaboados pelas análises de sempre nos EUA, que elogiarão a fala do presidente, essa conversa fiada miserável.

Depois, virá o fim de semana em que Mr. Obama falará à conferência anual do AIPAC, o mais poderoso “amigo” de Israel nos EUA. E começará tudo outra vez, segurança, segurança, segurança; rápida – se acontecer – referência às colônias israelenses na Cisjordânia; e, isso eu garanto, muitas e muitas referências a terrorismo, terrorismo, terrorismo, terrorismo, terrorismo, terrorismo, terrorismo. E, sim, mencionará o assassinato (para não usar a palavra execução) de Osama Bin Laden.

Mas o que Mr. Obama não entende – e Mrs. Clinton, essa, então, não faz nem ideia – é que, no novo mundo árabe, já não se trata de confiar em ditadorezinhos e seus asseclas. Que basta de bajulação. A CIA deve andar carregando malas cheias de dinheiro para distribuir, mas suspeito que poucos árabes se animarão a tocar nesse dinheiro. 

Os egípcios não mais tolerarão o sítio de Gaza. Nem, creio, os palestinos. Nem, tampouco, os libaneses, e nem os sírios, depois que se livrarem dos chefetes que os governam. Os europeus perceberão antes que os norte-americanos – estamos, afinal de contas, mais próximos do mundo árabe –, e duvido que continuem a admitir que a vida de todos continue a ser guiada pela indiferença acovardada com que os norte-americanos insistem em não ver o roubo de terras de que os israelenses fizeram meio de vida.

Tudo isso, claro, será como deslocamento vertiginoso de placas tectônicas para os israelenses – que deveriam estar elogiando e congratulando-se com os vizinhos árabes e com os palestinos, por se terem reunificado e unificado a causa; e que deveriam estar demonstrando solidariedade e amizade aos vizinhos árabes, em vez de medo. 

Faz tempo que minha bola de cristal partiu-se. Mas lembro bem do que Winston Churchill disse em 1940: “o que o general Weygand chamou de batalha pela França, acabou. Começa agora a batalha pela Grã-Bretanha.”