quinta-feira, 30 de junho de 2011


Assim falou o rabino Arik Ascherman



Creio que a melhor forma de proteger meus filhos e salvar o seu futuro é lutar pela justiça e tomar partido a favor dos palestinos”.

“Fui atacado várias vezes e detido por policiais e soldados de Israel”.

“creio no direito dos judeus de viver em Israel, mas a tradição judia ensina que a justiça e os direitos humanos triunfam sobre a criação do Grande Israel”.

“As autoridades israelenses estão decididas a limitar a presença palestina em Jerusalém oriental e seguem construindo residências para seus colonos. Essas iniciativas contam com o apoio de judeus ricos no exterior”.

Você pode ler mais sobre o rabino Arik Ascherman, em espanhol, Aqui.

terça-feira, 28 de junho de 2011


Por que Israel teme a Flotilha da Paz?


Por uma  simples razão.

A Flotilha da Paz carrega duas armas poderosas.

Poderosíssimas e podem causar danos jamais imaginados pelos dirigentes sionistas.

E que armas são essas?

Amor ao próximo e solidariedade.

Isso mesmo.

Amor ao próximo e solidariedade, as armas mais temidas pelos governantes de Israel.

Eles temem que a Flotilha contamine a população do país.

A Flotilha navega também com um símbolo terrível para os inimigos da ajuda humanitária.

O símbolo Hedy Epstein, 86 anos, estadunidense, judia, cujos pais foram vítimas dos nazistas.

Hedy Epstein já havia participado da primeira Flotilha e ficou indignada com a violência e o massacre praticados pelos soldados de Israel.

Os palestinos de Gaza estão preparando uma recepção inesquecível para os navegantes da Flotilha.

E uma, em especial, para a cidadã do mundo Hedy Epstein.

Hedy Epstein, judia, 86 anos, a avó que todo mundo queria ter.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

A prisão secreta de Israel

BBC  trouxe como manchete de página Netanyahu anuncia fim de 'privilégios' de detentos palestinos   AQUI.

O absurdo da informação da BBC não é a declaração de Netanyahu, o individuo que faz da crueldade contra os palestinos seu projeto de governo.

A exemplo de seus antecessores.

O absurdo é a BBC assumir a informação pura e simplesmente sem questionar as barbaridades que se sucedem nas prisões da entidade sionista.

Guantánamo, Abu-Ghraib e Bagram são uma brisa diante das atrocidades que se sucedem diuturnamente na antiga terra bíblica.

Basta consultar uma matéria publicada no jornal Frances Le Monde Diplomatique, cujo título é A prisão secreta de Israel.

“Espancamentos e tortura são rotina na fortaleza de concreto israelense, onde presos desaparecem e são despojados de seus direitos mais elementares, nos termos das Convenções de Genebra” AQUI.

E olha que essa matéria do Le Monde Diplomatique  nem é recente.

E nem o Diplô é totalmente confiável quando se trata de assuntos do Oriente Médio.

Fazer o que?

Essa é a mídia que se autodenomina de “informação”, quando, mais honesto seria se dissesse  de “propaganda”.

sexta-feira, 24 de junho de 2011


Vem aí mais um massacre



As forças armadas de Israel treinaram durante uma semana para interceptar a Flotilha da Paz, ou da Liberdade, ou da Solidariedade.

Alem disso, seus diplomatas tentam convencer países a não permitir que seus cidadãos participem desse ato de solidariedade.

Liberdade, paz,  solidariedade e ajuda humanitária são palavras odiadas pelos dirigentes sionistas.

A Flotilha da liberdade vai transportar mantimentos e medicamentos à sofrida população de Gaza, que vive num cerco brutal.

O governo de Israel não permite nem a entrada de remédio contra o câncer.

A primeira tentativa da Flotilha da solidariedade em romper o cerco terminou em massacre.

Esse massacre vitimou manifestantes desarmados e causou uma comoção mundial.

Mas os governantes de Israel não se sensibilizaram e prometem repetir o ato assim que os 10 barcos da Flotilha da Paz atingirem águas internacionais.

Como se sabe, Israel não reconhece as águas internacionais e nem as águas territoriais palestinas.

Para seus dirigentes, basta o apoio dos Estados Unidos.

O resto da humanidade que se dane.
Assista ao documentário( com legendas em português) sobre o ataque ao Mavi Marmara   AQUI

quinta-feira, 23 de junho de 2011


 Ibrahim (Abraão) , o hebreu            

Nasceu no Iraque
Não matarás
Buscou abrigo na Palestina

Chegou Jesus
Mensagem de paz e amor
Apresente a outra face

Os hebreus buscaram
Refúgio no cristianismo

Veio Muhammad(Maomé)
Quem salva uma vida salva a humanidade

Os cristãos buscaram
Refúgio no islamismo

Vieram os euro-sionistas
Vá a Canaã e passe todos pelo fio da espada 

Está contado mais um
Capítulo da Palestina

terça-feira, 21 de junho de 2011

OS MITOS EM QUEDA - ENTREVISTA COM RALPH SCHOENMAN
O escritor e diretor da Campanha Palestina pede o fim de toda a ajuda ao Estado de Israel e acusa: "A liderança sionista colaborou com os piores perseguidores dos judeus durante o século XIX e o século XX, incluindo os nazistas"


Stylianos Tsirakis*  Revista Teoria &amp Debate 
Ralph Schoenman foi diretor-executivo da Fundação pela Paz Bertrand Russel, papel através do qual conduziu negociações com inúmeros chefes de Estado. Com seu trabalho assegurou a libertação de prisioneiros políticos em muitos países e fundou o Tribunal Internacional dos Crimes de Guerra dos Estados Unidos na Indochina, organização da qual foi secretário-geral. Velho militante na vida política, fundou o Comitê dos 100, que organizou a desobediência civil massiva contra as armas nucleares e as bases americanas na Grã-Bretanha. Foi também fundador e diretor da Campanha de Solidariedade ao Vietnã e diretor do Comitê "Quem Matou Kennedy?".
Tem sido líder do Comitê por Liberdade Artística e Intelectual no Irã e co-diretor do Comitê em Defesa dos Povos Palestino e Libanês e do Movimento de Solidariedade de Trabalhadores e Artistas Americanos. Atualmente é diretor executivo da Campanha Palestina, que clama pelo fim de toda ajuda a Israel e por uma Palestina laica e democrática.

T&D - Em seu livro The Hidden History of Zionism (A História Oculta do Sionismo), você descreve quatro mitos sobre a história do sionismo. Nós gostaríamos que você explicasse um pouco seu livro.
Schoenman - O meu trabalho na Fundação Bertrand Russel foi importante por me dar a chance de documentar fatos da formação do Estado sionista de Israel. Em cursos e palestras que proferi em mais de uma centena de universidades americanas e européias, pude constatar que as pessoas não sabiam, não tinham conhecimento da história do movimento sionista, dos seus objetivos e de vários fatos. Nessas ocasiões deparei com concepções equivocadas sobre a natureza do Estado de Israel e foi isso que impulsionou o meu trabalho de escrever o livro, The Hidden History of Zionism, no qual eu abordo o que chamo de os quatro mitos que têm moldado a consciência nos estados Unidos e na Europa sobre o sionismo e o Estado de Israel.
T & D - Quais são esses quatro mitos?
Schoenman - O primeiro mito é o da "terra sem povo para um povo sem terra". Os primeiros teóricos sionistas, como Theodor Herzl e outros, apresentaram para o mundo a Palestina como uma terra vazia, visitada ocasionalmente por beduínos nômades; simplesmente, uma terra vazia, esperando para ser tomada, ocupada. E os judeus eram um povo sem terra, que se originaram historicamente na Palestina; portanto, os judeus deveriam ocupar essa terra. Desde o começo, os primeiros núcleos de colonos, promovidos pelo movimento sionista, foram caracterizados pela remoção, pela expulsão armada da população palestina nativa do local onde essa população vivia e onde essa população trabalhava.
T & D - Quais os outros três mitos?
Schoenman - O segundo mito que o livro pretende discutir é o mito da democracia israelense. A propaganda sionista, desde o início da formação do Estado de Israel, tem insistido em caracterizar Israel como um Estado democrático no estilo ocidental, cercado por países árabes feudais, atrasados e autoritários. Apresentam então Israel como um bastião dos direitos democráticos no Oriente Médio. Nada poderia estar mais longe da verdade.
Entre a divisão da Palestina e a formação do Estado de Israel, num período de seis meses, brigadas armadas israelenses ocuparam 75% da terra palestina e expulsaram mais de 800 mil palestinos, de um total de 950 mil. Eles os expulsaram através de sucessivos massacres. Várias cidades foram arrasadas, forçando assim a população palestina a refugiar-se nos países vizinhos, em campos de concentração e de refugiados. Naquele tempo, no período da formação do Estado de Israel, havia 475 cidades e vilas palestinas, que caíram sob o controle israelita. Dessas 475 cidades e vilas, 385 foram simplesmente arrasadas, deixadas em escombros, no chão, apagadas do mapa. Nas 90 cidades e vilas remanescentes, os judeus confiscaram toda a terra, sem nenhuma indenização.
Hoje, o Estado de Israel e seus organismos governamentais, tais como o da Organização da Terra, controlam cerca de 95% da terra palestina. Pela legislação existente em Israel, é necessário provar, por critérios religiosos ortodoxos judeus, a ascendência judaica por linhagem materna até a quarta geração, para poder possuir terra, trabalhar na terra ou mesmo sublocar terra. Como eu digo sempre, nas palestras em que apresento meus pontos de vista, em qualquer país do mundo (seja Brasil, EUA, onde for), se fosse necessário preencher requisitos parecidos com esses, ninguém duvidaria do caráter racista de tal Estado; seria notória a existência de um regime fascista.
A Suprema Corte em Israel tem ratificado que Israel é o Estado do povo judeu e que, para participar da vida política israelense, organizar um partido político, por exemplo, ou ter uma organização política, ou mesmo um clube público, é necessário afirmar que se aceita o caráter exclusivamente judeu do Estado de Israel. É um Estado colonial racista, no qual os direitos são limitados à população colonizadora, na base de critérios raciais.
O terceiro mito do qual falo em meu livro é aquele criado para justificativa da política de Israel, que se diz baseada em critérios de segurança nacional. A verdade é que Israel é a quarta potência militar do mundo. Desde 1948, os EUA deram a Israel US$ 92 bilhões em ajuda direta. A magnitude dessa soma pode ser avaliada quando observamos que a população israelense variou entre 2 a 3 milhões nesse período. Se o governo americano dá algum dinheiro para países como Taiwan, Brasil, Argentina, e a aplicação desse dinheiro tiver alguma relação com fins militares, a condição é que as compras desse material têm que ser feitas dos EUA. Mas há uma exceção: as compras de material bélico podem ser feitas também de Israel. Israel é tratado pelos EUA como parte de seu território, em todos os assuntos comerciais.
O que motivaria uma potência imperialista a subsidiar tanto um Estado colonial? A verdade é que Israel não pode mesmo existir sem a ajuda americana, sem os US$ 10 bilhões anuais. Israel é, portanto, a extensão do imperialismo na região do Oriente médio. Israel é o instrumento através do qual a revolução árabe é mantida sob controle. É, portanto, o instrumento através do qual as ricas reservas do Oriente Médio são mantidas sob o controle do imperialismo americano. É também um meio através do qual os regimes sanguinários dos países árabes são mantidos no governo, graças ao clima de tensão gerado por uma possível invasão israelense.
O quarto mito a que me refiro no livro, que tem influenciado a opinião pública mundial, refere-se à origem do sionismo, à origem do Estado de Israel. O sionismo tem sido apresentado como o legado moral do holocausto, das vítimas do holocausto. O movimento sionista tem como que se "alimentado" da mortandade coletiva dos 6 milhões de vítimas da exterminação nazista na Europa. Esta é uma terrível e selvagem ironia. A verdade é bem o oposto disso. A liderança sionista colaborou com os piores perseguidores dos judeus durante o século XIX e o século XX, incluindo os nazistas. Quando alguém tenta explicar isso para as pessoas, elas geralmente ficam chocadas, e perguntam: o que poderia motivar tal colaboração? Os judeus foram perseguidos e oprimidos por séculos na Europa e, como todo povo oprimido, foram empurrados, impelidos a desafiar o establishment, o statu quo. Os judeus eram críticos, eram dissidentes. Eles foram impelidos a questionar a ordem que os perseguia. Então, o melhor das mentes da inteligência judia foi impelido para movimentos que lutavam por mudanças sociais, ameaçando os governos estabelecidos. Os sionistas exploraram esse fato a ponto de dizer para vários governos reacionários, como o dos mares na Rússia, que o movimento sionista iria ajudá-los a remover esses judeus de seus países. O movimento sionista fez o mesmo apelo ao kaiser na Alemanha, obtendo dele dinheiro e armas. Eles se reivindicavam como a melhor garantia dos interesses imperialistas no Oriente Médio, inclusive para os fascistas e os nazistas.
T & D - Como se deu essa colaboração dos sionistas com os nazistas?
Schoenman - Em 1941, o partido político de Itzhak Shamir (conhecido hoje como Likud) concluiu um pacto militar com o 3º Reich alemão. O acordo consistia em lutar ao lado dos nazistas e fundar um Estado autoritário colonial, sob a direção do 3º Reich. Outro aspecto da colaboração entre os sionistas e governos e Estados perseguidores dos judeus é o fato de que o movimento sionista lutou ativamente para mudar as leis de imigração nos EUA, na Inglaterra e em outros países, tornando mais difícil a emigração de judeus perseguidos na Europa para esses países. Os sionistas sabiam que, podendo, os judeus perseguidos na Europa tentariam emigrar para os EUA, para a Grã- Bretanha, para o Canadá. Eles não eram sionistas, não tinham interesse em emigrar para uma terra remota como a Palestina. Em 1944, o movimento sionista refez um novo acordo com Adolf Eichmann. David Ben Gurion, do movimento sionista, mandou um enviado, de nome Rudolph Kastner, para se encontrar com Eichmann na Hungria e concluir um acordo pelo qual os sionistas concordaram em manter silêncio sobre os planos de exterminação de 800 mil judeus húngaros e mesmo evitar resistências, em troca de ter 600 líderes sionistas libertados do controle nazista e enviados para a Palestina. Portanto, o mito de que o sionismo e o Estado de Israel são o legado moral do holocausto tem um particular aspecto irônico, porque o que o movimento sionista fez quando os judeus na Europa tinham a sua existência ameaçada foi fazer acordos, e colaborar com os nazistas.
 *Stylianos Tsirakis é arquiteto.
Revista Teoria &amp Debate (Fundação Perseu Abramo) nº 5 - janeiro/fevereiro/março de 1989

segunda-feira, 20 de junho de 2011


Taças de Hitler vão a leilão

 Quatro taças que teriam sido utilizas por Adolf Hitler serão leiloadas na Inglaterra.

As taças trazem as iniciais AH, a águia  e a suástica estampadas.

O leiloeiro Jonathan Humbert, da Casa  JP Humber, em Towcester, Northants, disse que sua empresa está "animada" e espera conseguir pelas peças 8 mil libras esterlinas.

A informação é do jornal The Telegraph ( AQUI ), e me foi enviada pelo leitor W.S. de Santa Catarina, a quem o blog agradece. E esclarece que não crê que as peças “serão arrematadas pelos dirigentes sionistas, saudosos de seu grande líder Adolf Hitler”.

As peças serão leiloadas na terça – feira.

domingo, 19 de junho de 2011

Negar! Não aceitar! Dizer NÃO!



 Uri Avnery*


“Reconhecer o caráter judeu do estado de Israel é o último refúgio dos canalhas”. 

“Nem em dez, nem em dez mil anos, o Parlamento poderá aprovar leis propostas por católicos ou budistas ou islâmicos”.

“O que significa “judeu”? Uma nacionalidade? Uma religião? Uma tribo?
 Quem é o “povo judeu”?

“A exigência de que os palestinos reconheçam Israel como “o estado judeu” ou como “o estado-nação do povo judeu” é irracional, ridícula, absurda”.




Estou farto desse absurdo de exigir que Israel seja reconhecida como “estado judeu”. É exigência baseada numa coleção de frases ocas e definições vagas, sem qualquer conteúdo real. Serve a vários objetivos, quase todos nefastos.


Binyamin Netanyahu usa a coisa como truque para impedir o estabelecimento do estado palestino.
Essa semana, declarou que o conflito não tem solução. Por quê? Porque os palestinos se negam a reconhecer etc. etc. etc.

Quatro membros direitistas do Parlamento acabam de apresentar projeto de lei que dá poderes ao governo para recusar registro de novas ONGs e para dissolver as que existam, se “negarem o caráter judeu do estado”. 

Essa nova lei é apenas mais uma de uma série que visa a roubar direitos dos cidadãos árabes e da esquerda. 

Se o falecido Dr. Samuel Johnson vivesse na Israel de hoje, poria outras palavras na sua famosa frase sobre o patriotismo: “Reconhecer o caráter judeu do estado de Israel é o último refúgio dos canalhas”. 


Na fala dos israelenses de hoje, negar o “caráter judeu” do estado equivale ao maior de todos os pecados políticos: pretender que Israel seja “estado de todos os seus cidadãos”.

A ouvidos estrangeiros, talvez soe estranho. Numa democracia, o estado, evidentemente, pertence a todos os seus cidadãos. Nos EUA, é afirmativa obviamente  verdadeira. Em Israel, se você disser que o estado pertence a todos os cidadãos israelenses, estará perigosamente próximo de um ato de traição. (O mesmo vale para os tão alardeados “valores ‘comuns’” dos israelenses.) 

De fato, Israel é, sim, estado de todos os seus cidadãos. Todos os israelenses adultos – e só eles – têm o direito de votar para eleger membros do Parlamento. O Parlamento indica o governo e determina as leis. Há, aprovadas, muitas leis que declaram que Israel é “estado judeu e democrático”.
Nem em dez nem em dez mil anos, o Parlamento poderá aprovar leis propostas por católicos ou budistas ou islâmicos.
Numa democracia, quem decide são os cidadãos. Os cidadãos são soberanos. Democracia não é fórmula verbal oca.

Mas... que fórmula? – alguém poderia perguntar.

O Parlamento de Israel aprova leis que contêm a expressão “estado judeu e democrático”. Mas essa não é a única definição do estado de Israel que aparece nas leis israelenses. Longe disso! 

A definição mais frequentemente usada é “estado judeu”. Mas não basta para Netanyahu & Co., que fala de um “estado-nação do povo judeu”, expressão que cheira a século 19. E “estado do povo judeu” também é muito popular. 

O único traço que todas essas expressões-griffe têm em comum é que todas são perfeitamente vagas. O que significa “judeu”? Uma nacionalidade? Uma religião? Uma tribo? Quem é o “povo judeu”? Ou, expressão ainda mais vaga, “a nação judaica”? Será que se incluem na definição os deputados e senadores que propõem e aprovam as leis dos EUA? Ou as legiões de judeus que comandam as políticas dos EUA para o Oriente Médio? Que país o judeu embaixador do Reino Unido em Telavive representa?  

As cortes brigam ininterruptamente com a questão: onde está a fronteira entre os adjetivos “judeu” e “democrático”? O que significa “democrático”, nesse contexto? Poderia um estado “judeu” ser realmente “democrático” – ou, perguntado de outro modo: algum estado “democrático” será realmente “judeu”? Todas as respostas extraídas de sábios, de juízes de renome, de afamados professores sobre essas questões são capengas, ou, como se diz em hebraico: ‘têm pernas de galinha’.  

VOLTEMOS ÀS ORIGENS: o livro escrito em alemão por Theodor Herzl, pai fundador do sionismo, publicado em 1896. Lá se fala de “Der Judenstaat”.

Infelizmente, essa palavra alemã é intraduzível. Em geral, é apresentada em inglês como “The Jewish State” [O estado judeu] ou “The State of the Jews” [O estado dos judeus]. Todas essas traduções são erradas. A melhor aproximação possível seria algo como “The Jewstate” [talvez “estado judeuzoso”, em português[1]? (NTs)]. 

A palavra soa antissemita, e não por acaso. Talvez surpreenda muita gente, mas a palavra em alemão não foi inventada por Herzl. Foi usada pela primeira vez por um aristocrata prussiano de nome pomposo – Friedrich August Ludwig von der Marwitz –, que morreu 23 anos antes de Herzl nascer. E já era dedicado antissemita, muito antes que outro alemão inventasse a palavra “antissemitismo” – manifestação da riqueza do espírito alemão.

Marwitz, general ultraconservador, rejeitava todas as reformas liberais que se discutiam em seu tempo. Em 1811, disse à nação que aquelas reformas fariam da Prússia um “Judenstaat”, um estado judeuzoso. Nunca disse que os judeus seriam maioria na Prússia, Deus nos livre, mas, sim, que os agiotas e outros comerciantes judeus corromperiam o caráter nacional e destruiriam as antigas virtudes prussianas.  

Herzl, ele próprio, nunca sonhou com estado que pertencesse a todos os judeus do mundo. Antes, exatamente o contrário disso! Para ele, todos os verdadeiros judeus viajariam para o estado judeuzoso (fosse na Argentina ou na Palestina, ele ainda não resolvera). E só os que viajassem para lá – exclusivamente esses – continuariam, dali em diante a ser “judeus”. Todos os demais que não emigrassem seriam assimilados nos países onde estivessem e, assim, deixariam completamente de ser judeus. 
Muito, muito, muito diferente, da noção de um “estado-nação para o povo judeu” acalentada hoje por muitos sionistas, inclusive os milhões de sionistas que jamais cogitaram de imigrar para Israel. 

Quando menino, participei de dúzias de manifestações contra o governo britânico na Palestina. Em todas elas, cantávamos a plenos pulmões “Imigração livre! Estado hebraico!” Nunca, nenhuma vez, que me lembre, alguém fez algum tipo de manifestação a favor de algum “estado judeu”.

Nada de estranho nisso. Sem qualquer lei ou decreto, havia diferença bem clara entre nós (judeus que falávamos hebraico na Palestina) e os judeus da Diáspora. Para alguns, essa diferença pode ter chegado a ter traços de ideologia, mas para a maioria da população era simples expressão da realidade: agricultura hebraica e tradição judaica; movimento clandestino hebreu e religião judaica; kibbutz hebreu e Shtetl judaico. Yishuv (a nova comunidade de judeus recém chegados à região) hebraica e a diáspora judaica. Naquele momento, ser chamado de “judeu da diáspora” era o pior dos insultos! 

Para nós, naquele momento, nada havia de antissionismo na ‘classificação’. Era o contrário: o sionismo queria inventar uma velha-nova nação na região de Eretz Israel  (expressão que, em hebraico, equivale a “Palestina”), e essa nação seria, evidentemente, diferente do que eram os judeus no resto do mundo. Foi o Holocausto, com o descomunal impacto emocional que teve, que alterou todos os significados das palavras que então se usavam.

E como surgiu a fórmula “estado judeu”? Em 1917, no meio da I Guerra Mundial, o governo britânico lançou a chamada “Declaração Balfour”, na qual se afirmava a posição “do Governo de Sua Majestade a favor do estabelecimento na Palestina de um lar nacional para o povo judeu...” 

Cada palavra, ali, foi cuidadosamente selecionada, depois de meses de negociações com líderes sionistas. Um dos principais objetivos dos britânicos era atrair judeus norte-americanos e russos para a causa dos Aliados. A Rússia revolucionária já se afastava da guerra, e era essencial que os EUA isolacionistas entrassem na guerra.

(Por falar nisso: os britânicos rejeitaram as palavras “transformação da Palestina em lar nacional para o povo judeu” e insistiram em escrever “na Palestina”  – já prevendo a partição do país.)

Em 1947, a ONU decidiu dividir a Palestina entre as populações árabe e judaica. Isso nada declarava sobre as características dos dois futuros estados – apenas se usaram as definições então usadas pelos dois grupos em disputa. Cerca de 40% da população que já vivia no território alocado para os estado “judeu” era árabe.

Os que defendiam o “estado judeu” exploraram ao máximo a sentença na “Declaração do Estabelecimento do Estado de Israel” (chamada em geral de “Declaração de Independência”) que realmente inclui as palavras “estado judeu”. Depois de citar a resolução da ONU que fala de um estado judeu e de um estado árabe, a Declaração prossegue: “Nesses termos, nós (...) conforme a resolução da Assembléia Geral da ONU, declaramos o estabelecimento de um estado judeu na Eretz Israel, que se chamará Estado de Israel.” Essa frase nada diz, absolutamente, sobre o caráter do novo estado e o contexto é puramente formal.            


Um dos parágrafos da Declaração (na versão original em hebraico) fala sobre o “povo hebreu”: “Estendemos as mãos para todos os estados vizinhos e seus povos, em oferenda de paz e boa vizinhança, e apelamos a eles para que constituam laços de cooperação e mútua ajuda com o povo hebreu independente nessa terra.” Essa sentença aparece flagrantemente adulterada na versão oficial em inglês, que converteu as palavras finais em “com o povo judeu soberano instalado em sua própria terra”. 

De fato, teria sido praticamente impossível alcançar qualquer acordo, fossem quais fossem os termos ideológicos, uma vez que a declaração foi assinada pelos líderes de todos os grupos e facções, de antissionistas ultraortodoxos ao Partido Comunista orientado por Moscou.

Qualquer discussão sobre estado judeu leva inevitavelmente à questão: O que são os judeus, uma nação ou uma religião?

A doutrina oficial israelense diz que “judeu” é simultaneamente definição nacional e religiosa. O coletivo judeu, diferente de todos os demais, é ao mesmo tempo coletivo nacional e religioso. Conosco, nação e religião são uma e a mesma coisa. Mas a única porta de acesso a esse coletivo é religiosa. Não há porta nacional. 

Centenas de milhares de imigrantes russos não judeus imigraram para Israel graças à Lei do Retorno com parentes judeus. A lei é muito ampla. Para ser atraente para os judeus, a lei autoriza a vinda de parentes não judeus mesmo distantes, incluindo, por exemplo, a esposa do neto de um judeu. Muitos desses não judeus querem ser judeus para serem considerados plenos israelenses, mas, por mais que tenham tentado, nunca conseguiram ser aceitos. Sob a lei israelense, judeu é pessoa “nascida de mãe judaica ou convertida, que adote a religião da mãe.” Essa é definição puramente religiosa. A lei judaica diz que para esse efeito, só a mãe, não o pai, conta. 

É extremamente difícil ser judeu convertido em Israel. Os rabinos exigem que o convertido cumpra todos os 613 mandamentos da religião judaica – que só poucos israelenses reconhecidos cumprem. Mas ninguém pode, por outra via, ser membro oficial reconhecido da “nação” judaica. Nos EUA, as pessoas tornam-se parte da nação norte-americana quando aceitam a cidadania. Nada disso existe em Israel.

Vivemos hoje em Israel em luta sobre exatamente isso. Alguns israelenses querem que Israel seja estado israelense, pertencente ao povo israelense, um “estado de todos os seus cidadãos” de verdade. Alguns querem impor aos demais a lei religioso supostamente fixada por Deus para todos os tempos, no monte Sinai, há cerca de 3.200 anos, e a abolir todas as leis diferentes dessa aprovadas pelo Parlamento democraticamente eleito. Muitos não querem mudar coisa alguma.

Mas como, pelo amor de Deus (desculpem!) isso teria algo a ver com os palestinos? Ou com os islandeses, por exemplo? 

A exigência de que os palestinos reconheçam Israel como “o estado judeu” ou como “o estado-nação do povo judeu” é irracional, ridícula, absurda.

Como diriam os britânicos, “it’s none of their bloody business [não tem nada a ver com eles!]. Equivale a intromissão em assuntos internos de outro país.

Mas um amigo meu sugeriu uma solução simples para o imbróglio: basta o Parlamento de Israel mudar o nome do país para algo como “República Judaica de Israel”; isso feito, qualquer acordo de paz entre Israel e o Estado Árabe da Palestina implicará necessariamente o tal reconhecimento. 

Assim, Israel estará afinal reunido ao estado com o qual mais se parece hoje: a República Islâmica do Paquistão, que surgiu mais ou menos ao mesmo tempo que Israel, depois da divisão da Índia, depois de massacre mútuo e horrendo, depois de criado gigantesco problema de refugiados e com fronteira em guerra perpétua, na Caxemira. E, sim, claro, com a bomba atômica.



A comparação chocará muitos israelenses. Como? Nós? Iguais a um estado teocrático? Estamos cada vez mais próximos do modelo paquistanês e mais distantes do americano? 

Mas... que diabo! Basta negar, renegar, dizer NÃO! 

[1] Em português, o sufixo “-oso”, que aparece em “bondoso”, “generoso”, “carinhoso”, “prazeroso”, acrescenta ao radical ao qual se una traços semânticos de “abundância”, “grande quantidade”. Assim como “bondoso” designa alguém cheio de bondades, e “generoso” significa alguém com muita generosidade, um estado judeuzoso bem pode significar, por analogia, estado de muitos judeus. O significado da palavra em alemão parece andar nessa direção. A estranheza que cause o adjetivo neológico judeuzoso parece ser insuperável, mas não brota da neologia e, sim, da absoluta incompatibilidade que, na consciência ocidental contemporânea há, necessariamente, entre estado e religião (NTs).

Uri avnery, Gush Shalom [Bloco daPaz],Israel 

Tradução Coletivo Vila Vudu

sábado, 18 de junho de 2011

O cão de Ulisses e o cão dos rabinos



No dia 10 de maio do ano passado, o blog colocou um vídeo sobre um cachorro que apoiava os manifestantes gregos contra a repressão (AQUI)

Apenas hoje a BBC divulga um vídeo sobre esse assunto, sem mencionar a crise pela qual passa o país (AQUI)

Leia abaixo uma pequena homenagem de Homero ao fiel animal de Ulisses, que esperou pelo seu companheiro por 20 anos, para morrer em paz.

"Esquecido agora, na ausência do dono, diante do portal do palácio, Argos permanecia a vigiar, quase cego, coberto de sarna e pulgas. Ele reconheceu Ulisses no homem que chegava e, movendo o rabo, baixou as duas orelhas: faltavam-lhe forças para correr em direção ao dono. Ulisses o viu, voltou a cabeça e, tocado por sua aparência, verteu uma lágrima..." 

E no começo deste mês, o blog publicava a nota estarrecedora sobre a decisão de uma Corte Rabínica de Israel que condenou um cachorro a morrer a pedradas. O animal, segundo os rabinos estaria amaldiçoado e pediram para as crianças que o apedrejassem até a morte (AQUI)

 E hoje, apenas hoje, a BBC, repercute a informação (
AQUI)

sexta-feira, 17 de junho de 2011

A kasbah de Madrid

 Santiago Alba Rico*


Puerta del sol, Madrid - nada mais será como antes

Perguntaram ao novelista Kenzaburo Oe: Por que você diz que no Japão não há democracia?, “Pelo sorriso do primeiro ministro”. Os conspiradores, os violadores, os pedófilos, os caudilhos sorriem precisamente assim. Nos roubaram até a pureza dos sorrisos.


Para nós que estamos seguindo de perto as duas ocupações da Kasbah(1) da Tunísia, é muito difícil não sucumbir à emocionante vertigem de um déjà vu ante as imagens dos jovens que desde a segunda-feira passada dignificam a Puerta del Sol com sua presença: as lonas e cartuns, os papeizinhos com palavras de ordem pregados nos muros, as assembleias permanentes, as comissões de abastecimento, limpeza e comunicação, a obstinação frente a essa chuva torrencial que tantas vezes foi utilizada para justificar a abstenção eleitoral. Não nos enganemos: os protestos na Espanha inscrevem-se na mesma falha tectônica global e prolongam e readaptam o mesmo modelo organizativo inventado na Tunísia e no Egito (e no Bahrein, Síria, Iêmen etc.). O capitalismo fracassou em tudo, exceto em globalizar as respostas.
“Milhares de jovens espanhóis protestam contra as dificuldades econômicas”, intitula o diário francês Le Monde. É verdade. Também na Tunísia a paralisação, a pobreza e a inflação tiveram muito a ver com o estalar das revoltas. Mas o impressionante não é isto. O impressionante é que em ambos casos os manifestantes tenham reclamado e reclamem “democracia”. No caso da Tunísia e do mundo árabe todos esperavam que seus cidadãos invocassem a sharia – uma variação religiosa da Lei – frente à arbitrariedade e a corrupção; na Espanha, todas as análises apontavam uma penetração crescente do discurso neofascista como resposta à insegurança econômica e social e ao desprestígio da política: a direita conservadora parecia, para um lado e o outro do Mediterrâneo, a única força capaz de canalizar, deformando-o, o mal-estar geral. Mas eis que aqui o que os jovens pedem igualmente, aqui e ali, em Túnis e em Madri, no Cairo e em Barcelona, é “democracia”. Democracia de verdade! 

Que a peçam os árabes, parece razoável, pois viviam e vivem todavia submetidos a ditaduras ferozes. Mas que a peçam os espanhóis é mais estranho. Por acaso a Espanha não é já uma democracia?
Não, não é. Na Tunísia, um passinho atrás, ainda se confia em que seja suficiente ter constituição, eleições, parlamento e liberdade de imprensa para que haja democracia. Na Espanha, calçada prontamente com botas de sete léguas, compreendeu-se em um relâmpago que as instituições não bastam se quem governa as vidas dos cidadãos é o mercado, e não o parlamento. Estes jovens sem casa, sem trabalho, sem partido, associaram com intuição certeira as “dificuldades econômicas” ao governo ditatorial, não de uma pessoa concreta, não, mas de uma estrutura econômica que desativa ininterruptamente todos os mecanismos políticos – da jurisdição aos meios de comunicação – que deveriam garantir o jogo democrático. Estes jovens sem futuro souberam desnudar em um golpe a falácia subcutânea que durante décadas sustentou a legitimidade do sistema: a identidade entre democracia e capitalismo. Na Tunísia e no Egito o capitalismo dava varas; na Espanha dava uns poucos doces. 

Nenhum regime econômico tratou tanto a juventude como valor mercantil e nenhum depreciou tanto a força real de troca: enquanto a publicidade oferecia vez ou outra a imagem imutável de um desejo sempre enxertado, eternamente jovem, os jovens espanhóis sofriam a paralisia, o trabalho precário, a desqualificação profissional, a exclusão material da vida adulta e só por pouco se livraram das normas socialmente aceitas no consumo pequeno burguês, a perseguição policial. No mundo árabe, para que não reclamassem uma existência digna, os jovens eram golpeados e metidos na prisão; na Europa, para que não reclamem uma existência digna, lhes ofereciam comida lixo, televisão lixo, o tempo lixo dos supermercados e os movimentos. Na Tunísia, os jovens que não podiam ascender a uma vida adulta, eram retidos em seus corpos a golpes; na Espanha, os jovens que não podem comprar sua própria casa nem vender suas competências laborais, ainda podem adquirir tecnologia barata, roupa barata, pizzas baratas. Retida longe dos centros de decisão, depreciada ou superexplorada no mercado de trabalho, moldada por hábitos homogêneos de consumo, a juventude acabou por converter-se (na Europa e no mundo árabe) em uma “classe social” que, por suas próprias características materiais, não reconhece limites de idade. 

Mas não nos equivoquemos: se a repressão não funciona,  tampouco serve o que Pasolini chamava nos anos 70 de “hedonismo de massas”. Golpes ou doces, os jovens não aceitam que os tratem como crianças; não se deixam amedrontar (”sem medo”, gritam aqui e ali) nem comprar (“não somos mercadorias”). 

A Puerta del Sol em Madri demonstra também um grande fracasso “cultural” do capitalismo, que quis manter as populações europeias em uma permanente minoria de idade alimentando só de fome: de bens, de imagens, de intensidades puras. Assustados ou corrompidos, as crianças podiam deixar de votar sem perigo de que seu voto mantivesse nenhuma relação real com a democracia. Por isso, na Tunísia e em Madri, os jovens pedem precisamente democracia; e por isso, na Tunísia e em Madri, compreenderam certamente que a democracia está ligada a essa coisa que Kant situava de modo taxativo fora dos mercados: a dignidade.
É impressionante – impressionante, sim – ouvir gritar estes jovens apartidários, sem muita formação ideológica ou diretamente “ideolofóbicos”, a palavra “revolução”, como na Kasbah da Tunísia. São pacíficos, disciplinados, ordenados, solidários, mas querem mudar Tudo. Querem mudar o regime, como na Tunísia: monopólio bipartidário das instituições, corrupção, degradação do setor público, manipulação midiática, impunidade dos responsáveis pela crise. Como na Kasbah da Tunísia, todos os partidos institucionais, também os da esquerda, foram vistos pegos no contrapé ou empurrados para fora do jogo. 

Os jovens de Sol (e de outras cidades espanholas) não representam nenhuma força política nem se sentem representados por nenhuma força política. Mas o erro – claramente instrumentalizado pelos que se sentem ameaçados pelo estalo – é pensar que nos encontramos ante um rechaço, e não ante uma reivindicação, da política. 

À luz de experiências históricas precedentes poderíamos concluir que o desprestígio das instituições e da classe dirigente franqueia o passo às soluções populistas ou demagógicas ou à irrupção de um “líder forte” cuja vontade desate magicamente todos os nós e resolva milagrosamente todos os problemas. É o fascismo clássico. Mas o fascismo clássico, cuja sobra já se colocava no horizonte, é bem o que estes jovens vieram impedir e denunciar. O populismo e a demagogia já estão nos governando; os “líderes fortes” são os que dominam os partidos e tratam de impor suas adesões fiduciárias, puramente emocionais, às crianças eternas nas quais quiseram nos converter. 

Estamos em plena campanha eleitoral e os espanhois passeiam entre chamadas publicitárias dos candidatos. Há alguma dúvida? “Por que você diz que no Japão não há democracia?”, perguntava-lhes ao novelista Kenzaburo Oé. “Pelo sorriso do primeiro ministro”. 

Os conspiradores, os violadores, os pedófilos, os caudilhos sorriem precisamente assim. Nos roubaram até a pureza dos sorrisos.
A Kasbah da Tunísia, como a Puerta del Sol, rebelava-se justamente, em nome da democracia, contra toda classe de liderança caudilhista. Havia ali, como há aqui, uma afirmação ingênua de democracia pura, clássica, quase grega. O historiador Claudio Eliano conta a anedota de um candidato ateniense que descobriu um camponês escrevendo seu nome nas listas dos que deveriam ser condenados ao ostracismo. “Mas você não me conhece”, queixou-se o oligarca. “Precisamente por isso”, respondeu o camponês, “para que não chegue a ser conhecido”. 

Na Kasbah da Tunísia era muito poderosa esta suscetibilidade frente a todo o conhecido; ninguém que tivesse saído na televisão, ninguém a quem os manifestantes reconhecessem, era bem-vindo à praça. Eram os desconhecidos os que estavam autorizados para falar e fazer propostas; eram os desconhecidos os que tinham a autoridade que o mercado – e seu gêmeo político, o eleitoreiro – acumula, ao contrário, nas caras famosas. Mas acaba que os desconhecidos somos nós; os desconhecidos são os “qualquer” aos que esses candidatos sorridentes pedem o voto para os excluir logo dos centros de decisão. 

Na Kasbah da Tunísia, como na Puerta del Sol de Madri, há uma tentativa de democratizar a vida pública devolvendo a soberania aos desconhecidos. Ninguém pode negar os riscos nem os limites desta aposta, mas ninguém pode tampouco negar sem fraude que esta “revolução contra os conhecidos” constitui precisamente uma denúncia do populismo mercantil e da demagogia eleitoreira, os dois cortes centrais das instituições políticas do capitalismo.
Os jovens da Kasbah de Madri, das Kasbahs de toda Espanha, querem democracia real, pois sabem que dela depende seu futuro e de toda a humanidade; ainda não sabem que essa democracia, como nos recorda Carlos Fernández Liria, é o que nós chamamos sempre de comunismo. Terão que descobri-lo a seu modo. 

Nós, os mais velhos, o que vimos descobrindo desde cinco meses atrás, no mundo árabe e agora na Europa, é que “os nossos” – assim os chama Julio Anguita – não são como nós. No desejo de ser punk, a extraordinária novela de Belén Gopegui, a adolescente Martina, exemplar vivo desta nova classe social construída nas arestas dos mercados, reclama a seu pai: “você não foi um bom exemplo”. Não demos, não, um bom exemplo aos jovens e, apesar disso, quando desde a esquerda desprezávamos só um pouco menos do que os despreza Botín ou a Warner, quando acreditávamos definitivamente formatadas todas as subjetividades em um horizonte blindado, são eles os que se levantaram contra a “saciedade de doces” para reclamar uma “revolução” democrática. Martina está em Puerta del Sol e pode ser que também fracasse, como fracassou seu pai. Mas nenhum cinquentão de direita (nem de esquerda) virá dizer-lhe que sem luta não se consegue nada neste mundo. 

A segunda década do século XXI anuncia um futuro terrível, incerto, talvez apocalíptico, mas nos deparamos já com algumas surpresas que deveriam nos rejuvenescer.
Uma coisa é certa, se tudo vai mal como dizemos, seguramente haverá resistência.
Outra é que o que verdadeiramente une é o poder; e a Puerta del Sol, aconteça o que acontecer, já tem poder.
E outra é que todas as análises, por agudas e meticulosas que sejam, deixam fora um resíduo que acabará desmentindo-as.
Não haverá uma revolução na Espanha, ao menos neste momento. Mas uma surpresa, um milagre, uma tormenta, uma consciência nas trevas, um gesto de dignidade na apatia, um ato de coragem no consentimento, uma afirmação antipublicitária da juventude, um grito coletivo de democracia na Europa, já não é um pouco revolução? 

Tudo começou muitas vezes nos últimos 2.000 anos. E quando já só esperávamos finais, eis que aqui em muitos sítios, os mais inesperados, há gente nova empenhada em começar de novo.
*Santiago Alba Rico - Diário Liberdade, Portal anticapitalista da Galiza e países lusófonos
(Trad. Lucas Morais)

[1] Em árabe, cidadela, fortaleza, cidade murada. Mais em http://en.wikipedia.org/wiki/Kasbah

Enviado pelo Coletivo Vila Vudu

quinta-feira, 16 de junho de 2011


Cuidado! Não se deixe manipular

Algumas palavras-chave que a mídia continua utilizando para manipular seus leitores, ouvintes e telespectadores.

Incursão, ao invés  de invasão de um país.

Tutela, ao invés de ocupação.

Terrorista, o revolucionário que luta contra o jugo colonialista.

Efeitos colaterais, a morte de civis.

Seqüestro, a captura de soldado em território inimigo.

 Incidente, o massacre de centenas de civis.

Assentamento, a usurpação de terras por invasores do país.

Conflito, a invasão e ocupação de um país por  tropas estrangeiras.

Fique atento porque outros verbetes estão sendo preparados.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Zorba, o grego


Uma pequena reflexão

S.Squirra*

Um presente, uma excelente reflexão sobre a vida e a morte, porque andam juntas... talvez com o tempo, porque não dizer com a idade, a gente vai ficando ainda mais sensível...

A primeira versão, quando Anthony Quinn, aos 49 anos, dá um show inesquecível e eterno, com leveza, talento, paixão... uma explosão de sentimentos tomou conta da gente, a vida pulsando de todos os lados e tornando mágico um momento de bela expressão artística e varonil. Realmente um show!

Mas o que vem depois, o Quinn aos 84 anos reproduzindo a dança que o consagrou no cinema mundial, é demais...

Foi poesia pura o que ele fez no palco: com graça, paixão pela vida e a vontade de retribuir ao público tudo o que ele ganhou.

É para se emocionar muito, pensando o quanto efêmera é a vida, pensando na transformação que sofremos ao longo dos anos, e pensando no esforço que fazemos para continuar nosso caminho com orgulho, dignidade e prazer. Por um instante a gente esquece de tudo.

Mais um momento mágico, no qual cremos na eternidade, porque ela é palpável diante de coisas assim. Tudo passa na vida.
Ele passou também, mas teve a sorte de poder nos dar um presente como esse.

Anthony Quinn
Em 1964, com ... 49 anos (aqui, apenas uma música imaginária)
Em 1999, com ... 84 anos, dançando Zorba (aqui, um show de coro, orquestra e ... Anthony Quinn).


Veja os dois filmes. Sugiro que veja primeiro o original de 64 e depois a homenagem aos 84 anos.




S.Squirra é professor e escritor